segunda-feira, agosto 25, 2008
Entretenimento interessante (na Suíça)
Por Marcelo Crescenti, para a BBC Brasil
Uma exposição no Museu de História Natural da Basiléia, na Suíça, mostra como seriam os esqueletos de vários personagens de quadrinhos e desenhos animados se eles realmente fossem seres vivos." [leia mais]
sexta-feira, agosto 22, 2008
Sacanagem das boas!
Minha vida pessoal nada importaria aqui se eu não tivesse encontrado, nesse museu sobre a história mundial do erotismo, os quadrinhos da personagem Sjef van Oekel, de Theo van den Boogaard. Se você se interessa por HQs eróticos (isso é totalmente válido) e tem mais de 18 anos, cutuque aqui para conhecer o autor! Na verdade, o link vai dar numa excelente reportagem do Universo HQ sobre quadrinhos holandeses.
Também visitei em Amsterdam o Van Gogh Museum e o Rijksmuseum. Neste último, vi obras de Rembrandt, dentre outros. A tela de um artista me chamou a atenção, pois numa olhada de longe me fez lembrar um quadro de HQ. Esta tela:

É do século 17!
Cutucando aqui, você tem detalhes sobre a tela. Já este link vai dar na wikipedia do autor, em inglês.
Entrevista
Usei um computador da Alemanha pra responder o e-mail, nao repare nos erros. Aliás, "nao", sem til, porque falta esse acento aqui no teclado. Poderia usar no lugar um ß. Que tal? Ou talvez um Ü. Ou um Ä. Ou Ö.
Bem, vale ressaltar que o site Impulso HQ é altamente recomendável.
sábado, agosto 02, 2008
Mudança de endereço
A mudança de endereço a que me refiro é a minha. Pois na terça-feira embarco para Amsterdan, na minha primeira incursão à Europa. Fico dois dias na capital holandesa, depois vou de trem para a Alemanha. Morarei 12 meses lá, numa pequena cidade chamada Haselünne (próxima à fronteira com a Holanda, ao norte). Em princípio, em agosto de 2009 estarei de volta ao Brasil.
Obviamente este humilde blog continuará na ativa. Escreverei de lá, dentro do possível divulgando e refletindo sobre os quadrinhos alemães. E as coisas do Brasil também terão seu lugar, claro.
Mas um alerta: em função da etapa inicial de adaptação, não estranhe se não houver posts nas próximas semanas. Assim que me estabilizar por lá, voltarei com tudo, do mesmo modo que mantenho o blog aqui do Brasil.
De qualquer forma, enquanto isso você tem uma porção de posts para ler e reler. Principalmente os últimos, sobre as oficinas de HQ.
Bem, está avisado! Até breve!
Auf wiedersehen!
segunda-feira, julho 28, 2008
Agora o passo-a-passo
Vou pegar uma das histórias criadas e explicitar as etapas da criação.
1. ARGUMENTO

"Homem-Sereia e Mexilhãozinho [diminutivo de "mexilhão"] são dois heróis, têm 20 anos. Eles estavam salvando a cidade de Eucaliptos do malvado Plankton. Eles lutaram e salvaram a cidade de Eucaliptos. Ficaram descansando em suas poltronas até terem que salvar a cidade outra vez. Observação: o malvado Plankton queria cortar os eucaliptos."
A maioria dos argumentos criados na primeira turma retratava uma história corriqueira, sem nenhum conflito nem transformação das personagens. Nesses casos, eu mostrava isso aos alunos (numa linguagem acessível, adequada à faixa etária) e perguntava a eles se não seria melhor haver uma situação nova, que apresentasse uma mudança em comparação com a situação inicial. No caso das "Aventuras de Homem-Sereia e Mexilhãozinho", o aspecto humorísitco do "ficaram descansando em suas poltronas até terem que salvar a cidade outra vez" supera qualquer ausência de conflito. Apenas sugeri que os alunos explicassem que tipo de risco o vilão Plankton oferecia à cidade de Eucaliptos. Os meninos mesmos tiveram a idéia e escreveram a observação ao fim do argumento.
2. DESENHO DAS PERSONAGENS
Se a outra turma estava lidando com fundamentos de narrativa, a turma responsável pela segunda etapa do processo de criação coletiva da HQ trabalhava agora com imaginação, visualização. Os alunos tiveram que desenhar as personagens citadas nos argumentos. Para isso, além do ato de tirar a história do papel, era necessário uma visão do conjunto, de modo a não prejudicar o trabalho de quadrinização da turma seguinte.
No grupo que pegou a história das "Aventuras", uma menina chegou muito facilmente à forma da personagem Homem-Sereia:

O desenho mais difícil talvez fosse da personagem "Mexilhãozinho", mas a tarefa caiu nas mãos de uma menina criativa:

As tarefas foram divididas expontaneamente dentro do grupo, e a terceira menina ficou com a incumbência de desenhar o vilão Plankton. Houve várias tentativas e certas dificuldades, mas ao fim se chegou a este resultado:

3. QUADRINHOS
Não havia dúvida de que o processo de quadrinização - ou seja, pegar o argumento e os desenhos das personagens, juntá-los e transformar tudo isso numa ou mais páginas de história em quadrinhos - seria a etapa mais difícil (apesar de também a mais prazerosa). Agora os alunos tinham de acionar o pensamento imagético e também lidar com elementos de estrutura narrativa, alguns específicos da linguagem dos quadrinhos.
Tendo já cumprido metade dos encontros que me propus a fazer nessa escola e sabendo que até aquele momento a produção coletiva das HQs estava dando certo, temi que agora as coisas desandariam. Decidi dedicar mais tempo à atividade prática, portanto, ainda assim preparado para que o processo fosse interrompido ali. Para minha surpresa, deu tudo certo.
A primeira página das "Aventuras" começou a tomar forma assim:
E a segunda página:
Agora uma visão geral do grupo responsável por quadrinizar as "Aventuras", para ver como se subdividiam as tarefas entre eles:
O menino que lê
Pausa.
Pausa para falar desses pequenos grandes retornos que recebemos e que valem toda a dedicação que empenhamos.
A foto abaixo mostra um menino da quinta série lendo um livro da Turma do Xaxado.
Até aí, uma foto normal. Mas só se ignorarmos o fato de que esse menino absolutamente ODIAVA LER. Fiquei sabendo disso por intermédio dos professores, que inclusive tiraram a foto para registrar o momento único.
E não foi uma leitura casual. O grupo do qual esse menino participava já havia terminado a HQ, então ele me perguntou se podia pegar um dos livros que estavam na mesa dos professores, onde pus o material que trouxe. Enquanto os outros grupos trabalhavam, o menino se concentrava na leitura.
4. CORES/ARTE-FINAL
A última parte do processo de construção coletiva da HQ era relativamente mais simples, mas de suma importância. Os alunos não só tinham de marcar com caneta esferográfica e canetinha os traços dos desenhos e dos quadrinhos feitos pela terceira turma, além de pintá-los; era ainda um trabalho de revisão. Afinal, essa era a quarta e também a última turma a mexer com a HQ antes de ela ser publicada no mural da escola. Uma grande responsabilidade, portanto, já que havia problemas de falta de clareza e desenhos inacabados para resolver, antes de a história ir a público.
Deu tudo certo e, no fim, a HQ "Aventuras de Homem-Sereia e Mexilhãozinho" ficou assim:


Outras histórias
Usei o exemplo de "Aventuras" para construir um passo-a-passo porque as imagens estão boas e também porque ela constitui uma boa amostra do que surgiu na oficina, em termos de idéias e desenhos. É importante, porém, mencionar que outras seis histórias foram criadas, trabalhando gêneros variados como romance, aventura e comédia. Vale lembrar que a escolha dos temas foi mérito da primeira turma, que criou os argumentos por conta própria, sem minha interferência.
Um desses argumentos me chamou bastante a atenção. Chama-se "A guria que tinha medo".
É a história de uma menina que tinha medo de ficar sozinha e também sentia uma desconfiança geral e desmedida dos seus amigos. Um certo dia, ficando a sós em casa, sentiu medo. Depois viu que o temor passava ao ligar o rádio e que, de certa forma, ao ouvir os passarinhos cantando lá fora ela não estava mais sozinha. Ao se dar conta disso, ela passou a viver em harmonia com seus amigos, sem desconfianças.
É uma história sobre aprendizado, com fundo psicológico. Isso mostra na prática que os quadrinhos são uma linguagem e que, portanto, servem para contar as mais variadas histórias, não importa o grau de complexidade e o tema.
Atividade crítica
Me interessava bastante, fora de simplesmente fazer trabalhos separados com cada turma, que houvesse uma reflexão sobre o processo coletivo de fazer uma HQ - reflexão sobre valores como confiança em si mesmo e no próximo, respeito pelo colega , espírito de grupo e solidariedade - e também sobre o uso da linguagem dos quadrinhos e do trabalho com narrativas em geral. Também buscava um incentivo à criação artística, mostrando aos alunos que, agindo de maneira organizada e unindo forças, eles podem criar e se expressar. Em quadrinhos, principalmente.
Eu tinha esse objetivo mas não sabia se o cumpriria. Precisaria de mais tempo, de mais discussão, de continuidade. Em todo caso, registrei em vídeo o momento em que alunos do grupo que fez um dos argumentos via agora a HQ pronta, publicada no mural da escola. A reação me parece muito rica.
É isso. Mais do que refletir aqui sobre a minha experiência com essas oficinas (sim, porque este post e os outros que o precederam têm essa função, e eu não me ressabio nem um pouco com isso - ao contrário, até me encho de orgulho!), penso que relatar essa experiência pode servir para outras reflexões e aprendizados, não só meus. Aliás, publico este post até mesmo para refletir e aprender mais, com novos olhares e leituras sobre essas experiências. Além de esperar ouvir retornos sobre as suas próprias!
Bem, é isso!
sexta-feira, julho 25, 2008
Mais sobre as oficinas
Trouxe para os alunos exemplos de HQs que fogem do esquema "personagens infantis" e "super-heróis". Não desmerecendo esse tipo de gibi, claro, apenas dando mais opções aos alunos. Quer dizer, mostrando a eles que há toda uma possibilidade de obras no formato de quadrinhos atendendo a todos os gostos, interesses, culturas, idades e sexos.
Nas fotos abaixo, por exemplo, as crianças folheiam as reportagens em quadrinhos do mundialmente reconhecido Joe Sacco; as histórias estilo rock'n'roll das cariocas Mosh! e Jukebox; a HQ Estórias Gerais, que retrata o sertão mineiro; e uma porção de trabalhos da Turma do Xaxado. Também apresentei a eles a forte e complexa Maus, em que o autor Art Spiegelman conta como seus pais sobreviveram ao Holocausto; as teorizações em/sobre quadrinhos de Scott McCloud; os contos em quadrinhos de grande profundidade da revista mineira Graffiti; e a adaptação para quadrinhos do romance de Alcy Cheuiche sobre o índio Sepé Tiaraju, um herói da história do Rio Grando do Sul; dentre outros.
Essa foi uma parte do trabalho, cujo objetivo foi o de ampliar o leque de possibilidades de leituras de quadrinhos para os alunos. Os professores, que não conheciam a maioria das obras, também foram atingidos pela idéia e ao fim planejavam modos de usar esses quadrinhos em sala de aula.
A outra etapa foi uma "discussão prática" sobre a linguagem dos quadrinhos. Em suma, incentivei os alunos a criar HQs coletivamente, simulando um estúdio. Como ministrei a oficina em quatro turmas, deixei cada uma delas encarregada de uma parte do processo. Aqui aparecem as três primeiras, no quadro negro:
Explicando melhor. A primeira turma que visitei foi dividida em sete grupos. Cada um desses grupos criou um ARGUMENTO para uma história em quadrinhos. A turma seguinte foi novamente dividida em sete grupos, que fizeram o DESENHO DAS PERSONAGENS que apareciam nos argumentos anteriores. Ou seja, essa segunda turma deu andamento ao trabalho da primeira.
Na terceira turma, os argumentos e os desenhos das personagens foram transformados em QUADRINHOS. Um processo difícil, já que envolve muitas questões da linguagem dos quadrinhos ao mesmo tempo, mas acabou dando certo. À quarta turma coube o trabalho com CORES/ARTE-FINAL. Ou seja, o fechamento das HQs. Essa quarta fase não está escrita no quadro-negro justamente porque no momento da foto eu estava falando sobre ela para os alunos.
Depois dessa explicação toda, fotos da prática:
quinta-feira, julho 24, 2008
Oficinas
E nesta semana estou envolvido com atividades de quadrinhos. Ontem, por exemplo, estive na escola Valentim Bastianello, no município de Dilermando de Aguiar/RS, ministrando oficinas de HQ para crianças de 5ª e 6ª série. Algumas fotos:
Já hoje estive na cidade de Tupanciretã/RS, interagindo com alunos de 5ª a 8ª série da escola Alexandrina Soares de Barcelos. No fim, distribuí revistinhas da Turma do Xaxado entre os pequenos, das séries iniciais e da pré-escola.
domingo, julho 13, 2008
Quadrinhos e emergência
A história em quadrinhos está disponível aqui!
Para quem ainda não conhece, a Continuum é uma publicação mensal do Itaú Cultural, distribuída por mailing e disponível também na sede na Av. Paulista, em São Paulo. A edição impressa é publicada integralmente no site do Itaú Cultural, acrescida de matérias feitas exclusivas para a internet. Veja aqui! Cada edição tem um recorte temático diferente.
terça-feira, julho 08, 2008
Saindo da seca prum manancial...
Pois o Jô tirou o primeiro lugar no concurso “Seca e Água”, da Turquia. Detalhes você tem cutucando aqui.
Já o cartum, você vê aqui:

Independente do prêmio internacional, Jô demonstra visão de futuro já há pelo menos dois anos, quando desenhou a marca deste humilde blog. Ehehehe.
Pena que eu não tenho um troféu nem premiação em dinheiro para entregar...
quarta-feira, julho 02, 2008
Heróis da publicidade
Se bem que "super-heróis" sempre vai remeter à palavra "quadrinhos", nénão?!
Ah, a publicidade do Axe é merschandising gratuito, viu! É que o vídeo é realmente criativo, além de apresentar as onomatopéias de um jeito diferenciado. Vale a pena assistir!
Do tempo da internet a carvão...
Um pouco, mas não muito. Pois este vídeo mostra o modo como eram feitos livros em 1947:
Seria igualmente interessante saber como era o processo antigo de publicar HQs.
terça-feira, julho 01, 2008
Penso, logo visito!
Veja especialmente a citação da Alegoria da Caverna de Platão numa HQ de Maurício de Souza, cutucando aqui!
E veja também um trecho da versão em quadrinhos do pensamento de Descartes, cutucando aqui! Esse trabalho é de autoria do Paulo e do Walter.
É isso. Acho que o blog se recomenda por si mesmo, não?
Não pense duas vezes, vá já visitá-lo!
sexta-feira, junho 27, 2008
Quadrinhos adultos para crianças
Acredito que a realização se dá justamente em poder atuar de diversos modos dentro de um único campo, economizando energia (pois trabalhar em áreas distintas é muito desgastante) e ao mesmo tempo desenvolvendo habilidades pessoais diversas.
Alguns exemplos de como alguém pode se relacionar com os quadrinhos:
* Escrevendo roteiros - isso envolve o aprimoramento de habilidades narrativas e muito estudo de teorias literárias. É ótimo para quem gosta de falar sobre coisas humanas para seres humanos, para quem sente vontade de registrar suas observações sobre a vida de forma a que os outros também se interessem por ler.
* Desenhando - pegar uma idéia e transformá-la em imagens, com os simbolismos e as regras específicas desse pensamento visual aplicado à narrativa de quadrinhos. Fazer uma narrativa visual bem feita não é para qualquer um, envolve muito estudo, disciplina e amadurecimento. É ideal para quem visualiza cenas, imagens e símbolos não verbais para tudo que pensa. Claro que isso também pode ser desenvolvido, você não precisa necessariamente nascer com essa facilidade.
* Pesquisando - um trabalho fundamental, como forma de construir, consolidar e ampliar conhecimento na área, seja em estudos de narrativa, seja em estudos culturais, seja em estudos de ideologia. No fim, todos os outros profissionais dos quadrinhos vão se voltar para o trabalho de pesquisa, principalmente como forma de consulta e aprendizado.
* Criticando - essa é, disparada, a tarefa mais ingrata. O crítico, por mais que procure ser prudente, por mais que pese toda a responsabilidade que sua crítica pode ter na formação do artista e se preocupe em apontar as falhas e destacar os méritos da obra, ainda assim está sujeito a ser mal compreendido. Nada mais natural, em se tratando de algo que envolve tanto investimento afetivo por parte do autor. É assim que entendo a tal da "vaidade" autoral: algo saudável, sim, porque o artista precisa se envolver emocionalmente com a obra que produz. Só vira doentio quando a crítica é mal interpretada, despertando fúrias, o que não era a intenção do crítico (por que raios ele "falaria mal" só por falar? por que raios o crítico quereria mal ao artista?) Enfim, fazer crítica é uma função muito fundamental do campo, porque ajuda a compreender obras mais complicadas e aponta caminhos para aqueles artistas que ainda não dominam determinada linguagem narrativa. Mas dificilmente o artista entenderá assim. E não estranhe se ele levar para o lado pessoal...
* Comercializando - sim, quem tem habilidades de empreendedorismo e gosta disso pode continuar em contato com quadrinhos e ainda assim visar ao lucro. Como? Criando uma loja especializada em quadrinhos, por exemplo. Lojas assim são necessárias porque atendem a todos: artistas, críticos, pesquisadores...
* Formando público - talvez o trabalho mais gratificante. E é aí que quero chegar, é esse o motivo de existir este post.
Pois hoje estive no Colégio de Aplicação da UFRGS ministrando uma oficina de quadrinhos para alunos de sétima e oitava série. Foram na verdade duas oficinas, abrangendo 90 alunos no total. Cada oficina foi separada em dois módulos, o primeiro abordando as possibilidades de uso pedagógico dos quadrinhos e o estudo de elementos dessa linguagem, e o segundo focando em exemplos de quadrinhos que ultrapassam (e de longe) a barreira dos "quadrinhos para crianças". Claro que na prática foi algo bem mais divertido do que essa nomenclatura toda.
Foi um trabalho de formação de público. E foi riquíssimo, tanto para os alunos quanto para mim. A coisa toda aconteceu numa bagunça que só vendo (e é assim mesmo que acontece, me disseram as professoras). As crianças interrompiam, faziam perguntas, cochichavam, comentavam e na maior parte das vezes chegavam sozinhas e rapidamente às conclusões que eu queria conduzi-las. Chegavam lá antes mesmo de eu completar meu raciocínio. Às vezes, até tive que deixar elas falarem e só ajudar com pequenas observações. Outras vezes nem isso. E em alguns momentos a troca foi tão doida que os alunos acabaram me fazendo ver coisas que até então eu não tinha visto. Em suma, construímos conhecimento juntos.
E isso é impagável.
Eu já havia dado oficinas de quadrinhos para colegas universitários (do tempo que eu ainda era um) de outros cursos, não só das ciências humanas. Já havia palestrado sobre algumas das principais idéias dos quadrinhos para artistas plásticos e professores dessa área. Sempre é legal. Mas para crianças, nossa!, é ainda mais gratificante.
"Como se chama mesmo o nome dessa editora que publicou o 'Maus'?"
"A mãe do Calvin tá com cara de 'aff'' nessa tirinha."
"Eu leio mangá e eles são quase sempre em preto e branco!"
"A Mônica e o Cebolinha são desenhados com formas mais circulares, arredondadas!"
"Olha o desenho que eu fiz, 'sor'."
Claro que também tem aqueles que nem estão pra oficina, mas ainda assim é um trabalho riquíssimo. Mostrar para os alunos que existem quadrinhos maduros, que não são coisa só de criança, e alfabetizar esses alunos em elementos básicos de leitura visual é investir no amadurecimento do campo dos quadrinhos como um todo. Daí podem surgir, no futuro, pesquisadores, artistas (que terão acesso cedo a obras não muito acessíveis para quem não é da área), roteiristas, críticos (coitados!) e até mesmo leitores. Os superficiais, que terão ao menos despertado o interesse por essa linguagem; os mais atentos, que prestarão atenção aos detalhes; os de bom gosto, que contribuirão com o campo na medida em que passarão a exigir mais qualificação dos artistas; e os desinteressados, que no mínimo vão saber que quadrinhos são bem mais interessantes do que parecem.
Essa interação com as crianças é ainda mais rica para mim, quem sabe, do que é para elas. Recomendo a quem ainda não passou por essa experiência. Será bom para você, será bom para as crianças. Para o campo dos quadrinhos, nem se fala.
E para quem quer uma maior sensação de realização no trabalho com quadrinhos, marco uma idéia importante: não se restrinja a um papel estanque dentro do campo. Você pesquisa quadrinhos? Pois vá dar uma oficina também e veja o que acontece. Você tem uma loja de quadrinhos? Comece a estudar narrativas e escreva suas histórias, nem que seja só para você mesmo. Você já é autor? Comece a analisar obras também, pois isso aumentará sua visão crítica sobre o próprio trabalho.
De preferência, atue em três ou mais funções. Você se sentirá bem mais realizado.
***
As idéias que expus neste texto, só para deixar claro, não são mera opinião.
Em primeiro lugar, a metodologia usada na oficina foi pensada de acordo com a faixa etária dos alunos, de acordo com os interesses de leitura e as capacidades de compreensão da idade. A parte de alfabetização em leitura de imagens é baseada praticamente no livro "Desvendando os Quadrinhos", de Scott McCloud. Seria injusto, porém, dizer que todas as idéias partiram daí. Eu passei três anos pesquisando semiótica visual no Grupo Imagem, grupo de pesquisa com certificação do CNPQ orientado pelo professor Adair Caetano Peruzzolo, na UFSM. No Grupo Imagem, debatíamos idéias de Adonis A. Donis, Phillipe Dubois, Eliseo Véron, Jacques Aumont, Umberto Eco e outros. Referências mais precisas você tem aqui!
Também pesquisei sobre narrativas para o meu trabalho de conclusão de curso. Desde então, venho me aprofundando mais nessa área.
Sobre como obter satisfação pessoal e coisas do tipo... Não, essas idéias não são de livros do Paulo Coelho ou livros de auto-ajuda. Mas se fossem, também não seria problema. O importante é que sejam úteis. Caso, porém, você queira um embasamento maior sobre isso, a fonte precisa é o livro "First Things First", de Stephen Covey. Mais do que questões sobre como gerenciar melhor seu tempo, esse administrador fala no livro sobre como definir o que é realmente importante em sua vida, beneficiando até mesmo sua parte profissional (em conseqüência, não como fim). É um livro que ajuda você a pôr as coisas nos seus devidos lugares e ainda dá ótimas idéias sobre como se sentir mais satisfeito com as coisas que você faz, apenas mudando o modo de vê-las.
Outro dia posso resumir aqui as idéias principais desse texto. É importante, mesmo fugindo do tema "quadrinhos".
Bem, por hoje é "só".
segunda-feira, junho 23, 2008
300º post
toda a minha alma.
Este livro que viu
as paisagens comigo
e viveu horas santas.
Que pena dos livros
que nos enchem as mãos
de rosas e de estrelas
e lentamente passam!
Troque a palavra livro por blog e livros por posts nesse poema de García Lorca e será feita então a justa homenagem ao 300° post deste blog. Obrigado, cabruuum, pelas horas santas desses quase três anos de convívio. Obrigado pela aprendizagem, pelo crescimento, pela cumplicidade. Obrigado por me acompanhar esse tempo todo e me proporcionar bons momentos!
Obrigado a você também, leitor, pois essa relação é, na verdade, um ménage à trois. Sairemos para jantar os três!
sábado, junho 21, 2008
A crítica da crítica
Há algumas semanas publiquei aqui uma crítica sobre a HQ "A casa ao lado", de Pablo Mayer e Diogo Cesar. Veja aqui!
Confesso (embora o texto por si só deixe claro isso) que fiquei receoso com a repercussão que a crítica poderia ter. Para minha surpresa, não houve repercussão nenhuma. Ehehehe. Mas me interessou saber se, como iniciante que sou nessa lida de fazer críticas, eu tive um julgamento correto sobre a obra. Quer dizer, eu senti que sim, mas é sempre bom o crítico ser autocrítico.
Até porque o crítico é alguém que se torna crítico meio que involuntariamente. Pelas leituras e estudos de determinada linguagem, ele acaba aumentando a percepção e o olhar analítico sobre as obras. Aliás, ele não, eu. Afinal, eu sou o crítico em questão.
Essa observação acaba com aquela dúvida: crítica é opinião? Não, não é. Quer dizer, só é opinião quando o cara que a escreve não tem formação e, com isso, não tem o que falar, quando fica num gostei/não gostei, embora às vezes um pouco mais elaborado do que isso. Só é opinião, portanto, quando o cara que está escrevendo sobre a obra quer se sentir um crítico, sem o ser involuntariamente. Esses casos são complicados. Porque fazer crítica é algo que exige muita responsabilidade.
Eu senti essa responsabilidade quando escrevi sobre "A casa ao lado". E pensei bem se escreveria a crítica ou não. Quer dizer, lendo a obra eu percebi certas coisas, mesmo não querendo. Seria muito mais fácil para mim simplesmente gostar e ponto final. Mas gostei e não gostei, porque vi falhas e tudo o mais, além dos méritos da obra. E decidi que deveria expor tudo isso aqui.
Passou o tempo e, há alguns dias, descobri outras resenhas/críticas sobre a mesma obra. Eu não havia lido nenhuma outra avaliação para escrever a minha própria, que fique claro. Portanto me interessava saber o que veículos especializados (leia-se: "com mais experiência do que eu") escreveriam sobre uma obra que eu também analisei.
Bem, vejamos algumas críticas/resenhas:
- Blog dos Quadrinhos
- Revista O Grito
- Universo HQ
Essa leitura comparativa é realmente um belo exercício. Recomendo que você o faça, não vai levar muito tempo. O maior texto é o meu, os outros são pequenos.
...
Leu?
...
Agora, algumas observações. À primeira vista, parece que há contradições entre os quatro textos (o meu e os outros três que acabo de lincar). Como no fato de eu elogiar a qualidade gráfica da obra e em outro lugar estar dito que "a edição não tem muito luxo". Parece contraditório, mas não é. Eu concordo, a edição não tem muito luxo, mas não precisa de luxo para demonstrar requinte. Dentro do formato simples em que foi pensada a publicação (sem orelhas e tudo o mais), está muito bem feita.
Sobre a parte narrativa, percebi que todas as resenhas/críticas demonstraram um pé atrás em relação ao tema da obra. Algumas fizeram elogios discretos, onde se sobressai mais a crítica subentendida do que o elogio em si. Outros fizeram críticas um pouco mais declaradas, mas procurando neutralizá-las logo em seguida com uma louvação exagerada. Mas, no fim, praticamente todos os textos apontaram que se trata de uma trama simples e que beira o clichê, embora alguns desses textos destaquem aspectos supostamente inovadores que, em tese, dariam todo o mérito da obra e evitariam o clichê. Mas a citação do clichê está ali, em todas as resenhas/críticas.
Poucos entraram nos méritos das questões narrativas em si. Isso me parece explicável por algumas hipóteses:
1) falta formação em análise de narrativa aos resenhistas/críticos - isso seria improvável em alguns casos, mas, mesmo que o fosse, não seria algo ruim de destacar. Afinal, há inúmeras maneiras de olhar uma obra. Eu gosto da parte narrativa. Tem gente que tem mais ligação com o contexto e com a origem histórica, coisas que por enquanto não são meus fortes.
2) foi uma leitura rápida - sim, isso explicaria muita coisa. Eu li com calma porque a minha demanda de leitura não estava grande na época. E, ainda assim, foi uma leitura rápida, porque é um livro pequeno. Mas falo, nos outros casos, em leitura rápida assim, bem rápida mesmo, tipo aerodinâmica - só passar os olhos por cima.
3) estão fazendo vista grossa - também natural. Porque o Pablo e o Diogo são jovens e estão apenas começando essa lida com feitura de quadrinhos. Ninguém quer queimá-los e, ainda por cima, ambos demonstram pontos fortes de potencial qualidade na obra. Isso merece ser destacado. Eu optei por uma abordagem que aponta esses pontos fortes mas que também mostra as falhas, até para os autores se darem conta e poderem evoluir. Outros críticos/resenhistas optaram por falar só dos méritos.
Em suma, lendo os três textos e relendo o meu, cheguei a uma conclusão de certa forma óbvia, mas só depois que eu a expor: todas as críticas/resenhas MANIFESTAM-SE de maneira opinativa ou, melhor dizendo, subjetiva. Em compensação, todas essas opiniões e análises subjetivas SÃO BASEADAS em critérios objetivos muito bem definidos.
Na prática, por exemplo: todos os textos apontaram um enredo pouco interessante em "A casa ao lado", mas a maneira como cada crítico/resenhista decidiu apontar isso variou. Um fez vista grossa, outro elogiou os méritos sem deixar de apontar os defeitos, outro criticou mas cheio de dedos... Todos viram o problema, mas cada um manifestou de um jeito.
Bueno, isso renderia um artigo, mas como prefiro essa linguagem descontraída, rendeu um post.
Jornalismo em Quadrinhos para pesquisadores
quinta-feira, junho 19, 2008
Turma da Mônica em formato mangá

A notícia tem saído em muitos veículos especializados: Maurício de Souza vai iniciar uma nova publicação, voltada para o público adolescente. A Turma da Mônica versão mangá vai mostrar as conhecidas personagens infantis lidando com novos conflitos: sexualidade, drogas e as questões que envolvem essa fase de passagem para o mundo adulto.
Alguns veículos para saber mais:
Em fóruns de discussão da internet, há pessoas se manifestando contrárias a essa mudança de público e formato da Turma da Mônica. Na minha opinião, é um descontentamento com a utilização de uma memória pertencente ao mundo da infância, que realmente gostamos de preservar intocável. Mas, confesso, diferentemente da versão mangá do Batman, essa Turma da Mônica Jovem me agrada. Principalmente se não ficar numa abordagem simplista de conflitos envolvendo drogas, sexo e bebidas. A adolescência é rica demais para ser simplificada desse jeito.
O luto da perda da infância. Essa pode ser tanto a explicação para a recusa em ver os personagens da Turma da Mônica crescidos (manifestamos a mesma recusa na vida real, ao ver filhos/sobrinhos/etc entrando na adolescência), como também uma sugestão de abordagem. Mas nada complexo, como pode parecer. Me refiro a tratar do que todo mundo vive nessa fase, tratar das questões que diferem a adolescência do mundo maravilhoso da infância.
Enfim, tem que ver como essa idéia vai ser na prática...
segunda-feira, junho 16, 2008
Chutar dois baldes
Como o universo sempre conspira a favor justamente quando não deve conspirar, acabei encontrando esta tira do André Dahmer:
Eu esperava a autorização do Dahmer para publicar aqui no blog. Ainda bem que ela não veio ainda na sexta-feira, quando encontrei a tira. Eu estaria criando as bases para o meu legítimo dia de fúria. Como passei um final de semana longe do computador, tudo isso passou.Por ora.
Em todo caso, vou ficar atento. Qualquer alteração no quadro clínico, manterei você informado.
***
Esta é a última pá de terra:
sexta-feira, junho 13, 2008
Chutar o balde
Como disse uma vez o psicólogo Eduardo Castro num encontro no Curso de Comunicação da UFSM, não devemos ter culpa por sentir tristeza ou depressão no mundo de hoje. Na sociedade doente em que vivemos, sentir-se mal é a única resposta saudável que podemos ter.
Normalmente, o sentir-se mal é o caminho do meio para provocar mudanças e aprender a viver de um jeito mais saudável no meio dessa doença toda. Mas tem gente que reage por meio da explosão, da revolta instantânea e imediata que, no meu ver, também é uma resposta saudável. Michael Douglas é o modelo desse tipo de rebelião social.
Esta história em quadrinhos também é.
***
Procurando um link que remetesse ao filme "Um dia de fúria", acabei dando de cara com essa notícia aqui. Um pouco bizarra, como você vai ver. Mas exemplar no sentido de se rebelar contra algo que a gente tende a aceitar de cabeça baixa.
Outro belo exemplo de rebeldia (e uma rebeldia incentivada por quem a praticou) é a história contada nesta reportagem da Rolling Stone sobre o jornalista Eduardo Bueno. Que, aliás, cita Michael Douglas.
domingo, junho 08, 2008
Quadrinhos em reconstituição de crimes
O interessante é que o Gilmar não considera esse trabalho como uma obra de quadrinhos-verdade (ou jornalismo em quadrinhos, embora não sejam exatamente a mesma coisa). No ponto de vista do Gilmar, trata-se de uma reconstituição visual do crime. Me parece uma visão muito lúcida.
E o trabalho é muito bom, vale a pena conferir.
Cutuque aqui!

