terça-feira, outubro 09, 2007

Um grande livro, com duas grandes histórias

Sábado é dia de não ter hora para acordar...

- Péeeeeeeeeim!!!

Puxa, desse jeito não preciso de despertador. É o segundo fim-de-semana seguido que o carteiro me acorda. Ponho uma calça e um boné. A camiseta deixo, pois nem parece pijama. Abro três fechaduras, desço as escadas, saio pela porta do prédio e amiúdo os olhos, que o sol cega às 11 da manhã. Ainda mais para quem recém saiu do escuro.

- Uma entrega para o sr. Augusto. É o senhor?

- Sim, sim.

O envelope é branco, com detalhes em vermelho. O que deve ser? Estou esperando alguma correspondência? Ah, sim, o Léo ficou de me mandar um livro... Sim, sim, está escrito aqui o remetente: "Rede Minas", é mesmo o livro que o Léo disse ontem que me enviaria. Nossa, veio rápido.

***

Papel reciclado... Roteiro de Wellington Srbek e desenhos de Flávio Colin, já falecido. A orelha diz que "Estórias Gerais já nasceu um clássico do quadrinho nacional, e não apenas por seu tema e cenário colados à realidade e à mitologia do sertão mineiro (...)". Realmente, parece ser uma baita obra. É bom começar o sábado com um presentão desses.



Bem, bem. O Betinho está para chegar, vou preparar um chimarrão e fazer uma bóia. Depois que ele pegar o ônibus, às 16h, eu me encarno no livro.

***

Cá estou eu na rodoviária. "Chove na tarde fria de Porto Alegre", como nos versos de Ramilonga, de Vítor Ramil. 16h10. Vou na Bienal? Volto para casa? Vou ao cinema? Vou na Redenção?

Mando algumas mensagens, espero as respostas. Ainda bem que trouxe o livro. Estórias Gerais. Me encosto numa coluna, sentado num banquinho. No meio da leitura, sou interrompido pela voz de Darth Vader: um senhor afônico fala ao celular por meio de um aparelho parecido com um ultrassom de fisioterapia. Ele encosta o tubo na garganta, e o resultado é uma voz metálica, estranha para quem está perto e nunca viu disso antes. Não sei como deve ficar no telefone, para quem está do outro da linha.

17h30. Bem, pelo sim, pelo não, melhor ir para casa escapar da chuva. Continuarei a leitura lá.

***

No celular, escrevo: "tchê, adoraria estar aí no teu aniversário, é uma pena mesmo, mas esta chuva... Bem, amanhã combinamos um chimarrão. Abc."

Já são 21h, é ruim de pegar ônibus.

Logo o fixo toca:

- Cara, é o Maharis. Eu te pego aí em casa.

E foi assim que fui parar na festa de aniversário de vinte anos do meu amigo de infância, lá na Vila Petrópolis. A festa foi no mesmo dia em que o Maharis se tornou tio, graças a pequenina Sophia, recém-nascida. Era para ser festa surpresa, mas ele já estava sabendo.

Alguns rostos conhecidos: o Fernando, o Felipe, o Fabrício. Coincidência começarem com F, porque o Hélio também estava lá. Eles estão grandes, não são mais aqueles meninos de sete anos atrás, da última vez que os vi. Mas impossível não os reconhecer.

A casa em que morei a maior parte da minha vida fica dois terrenos abaixo da casa do Maharis, onde é a festa. No mesmo lugar onde agora a gente bebe cerveja, muita cerveja, antigamente nós jogávamos botão, cobrávamos pênalti nas folhagens da mãe dele e fazíamos partidas de vôlei usando a grade como rede. Sei não, isso deve ser uma realidade paralela, um vislumbre de como seria minha rotina de jovem se não tivesse me mudado para Santa Maria. Não muito diferente, mas também não igual. Agora estou de volta, e tenho a sorte de momentaneamente passar por esse estranhamento espaço-temporal. Sensações, autoanálises, associações, filosofias. Que loucura.

Mas é impossível ser saudosista aos vinte e um anos. Chego em casa só as 6h30 da manhã.

***

Domingo, tempo chonho em Porto Alegre. 16h. Ou eu dou uma volta, ou viro mofo dentro de casa.

No ônibus, retomo a leitura de Estórias Gerais. O que uma pausa no momento certo não pode fazer... Na página 112, encontrei este dizer, saindo da boca da personagem Zé Gambá:

"A jornada que leva mais longe é a que nos guia mais para dentro da gente. No ponto de chegada, o viajante já não reconhece aquele que era no porto de partida. Qual o resultado da viagem? Qual a verdade revelada? Que, na verdade, a verdade não é nada!"

E foi assim que este fim-de-semana tive mais que a história de um livro para resumir.

5 comentários:

Leandro Malósi Dóro disse...

Parabéns, Augusto. Uma crítica cheia de vida. Merece uma coluna em sites diversos e inúmeros.

Carla Arend disse...

Da arte de conviver com a gente mesmo.

E, sabe? Espero, um dia, fazer a capa de um livro teu... tá, tá, eu sei que vai ser o Betinho. Me permites a orelha? :)

Léo disse...

Augusto... achei bacana demais essa forma cronológica de dizer duas coisas ao mesmo tempo. Como disse antes, tenho certeza que o livro seria mais bem aproveitado com você do que na estante lá do programa. O blog é referência, rapaz! Valeu!

Leonardo disse...

Mas olha o "saudosimo" mãos-de-cavalo incutido no Augusto!

Gostei de ler, tu melhora o teu texto à passos largos na oficina do Tio Assis.

Por falar em Vitor Ramil, ele vai estar por aqui em Floripa hoje, na tour do novo dicso dele "Satolep sambatown", em parceria com o Marcos Suzano. Já escutou?
Queria dar uma olhada num show dele, nunca fui, mas é demais de caro para um estudante ainda sem bolsa.

Abraço!

Wellington Srbek disse...

Muito bacana o teu texto, Augusto! Para mim é sempre interessante saber como um leitor chegou à minha obra. Com direito até a uma citação de trecho da HQ. Bem legal!
Valeu pela visita e divulgação do blog. Quando puder, confira a seção Extras Gerais do meu saite, na qual narro como o Estórias Gerais foi produzido: http://www.maisquadrinhos.com.br/
Grande abraço!