quarta-feira, dezembro 29, 2010

Maior São João do mundo

A última edição da revista Fraude - publicação anual do Programa de Ensino Tutorial da UFBA - saiu com um trecho da reportagem em quadrinhos Maior São João do Mundo. A HQ foi feita por Marcelo Lima, em Campina Grande, na Paraíba. Você a lê abaixo, mais especificamente nas páginas 39, 40 e 41.

Open publication - Free publishing - More salvador

A reportagem em quadrinhos tem mais quatro partes, que foram publicadas exclusivamente no site da revista Fraude, junto com vídeos, áudios e outros extras. Caso interesse, acesse todo esse material a partir daqui.

O final da reportagem será publicado no início de 2011, segundo o autor.

terça-feira, dezembro 28, 2010

Der Weg zur Wiedervereinigung

O Goethe-Institut publicou uma pequena história em quadrinhos em forma de revista, essa mesma que você pode folhear online aí embaixo. A HQ narra os acontecimentos que levaram à queda do Muro de Berlim e à reunificação alemão.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

Os beats: autodestrutivos, porém imortais

A edição número 17 da revista Norte sai com um texto meu sobre o livro "Os beats - graphic novel". Nesse texto, eu decidi ousar um pouco e acabei fazendo uns experimentos para ressaltar o conteúdo do livro na forma da resenha. Se funciona ou não, você mesmo pode dizer. A edição está disponível online logo abaixo. Meu texto está na página 27.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

O EIJQ não acabou...

Já faz mais de um mês que aconteceu o I Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos (EIJQ), mas ele segue reverberando.

Para começar, um estudante da UFRGS fez um relato sobre a mesa "Quadrinhos: ficção ou não-ficção?", que aconteceu durante o evento. A quem interessar, cutuque aqui.

Há também o relato de Rodrigo Casarin, especialista em Jornalismo Literário em Quadrinhos, que viajou de São Paulo a Porto Alegre apenas para participar do evento. Cutuque aqui para ler seu depoimento.

E eu fiz um um balanço final do I EIJQ, do ponto de vista da organização. Ei-lo.

Para seguir recebendo informações sobre o evento, basta seguir o twitter @EIJQ.

sexta-feira, novembro 26, 2010

Rio de violência

Está sendo bastante retuitada no twitter esta HQ de Felipe Gomes, proprietário do blog Tiras Experimentais.


[cutuque com o mouse para melhor visualização]

O contexto que motivou esse depoimento sincero e, no meu ver, lúcido é este aqui.

terça-feira, novembro 23, 2010

5 anos, 5 links

Domingo este blog completou 5 anos de vida. Sim, de vida, porque a existência na internet é uma espécie diferente de existência. Inclusive deixo a sugestão de se criar um quarto reino: mineral, vegetal, animal e... internet.

Para comemorar esses 5 anos, deixo aqui 5 links que vêm se acumulando nas abas do meu navegador.

1) No Rio Comicon houve uma mesa com filhos de quadrinistas. Foi muito interessente, como você vê por relatos como este: "Meu pai pedia que eu e minha irmã posássemos para os desenhos, mas não éramos personagens, às vezes virávamos monstros horríveis cheios de tentáculos" (Patricia Breccia). Cutuque aqui para ler outros depoimentos.

2) Muita gente não sabe porque o cartunista Laerte aparece vestido de mulher em eventos públicos. A Folha Online entrevistou-o sobre isso. Cutuque aqui.

3) O Arnaldo Branco escreveu um perfil do colega André Dahmer. Cutuque aqui.

4) Outro perfil: Neil Gaiman foi perfilado na The New Yorker. Touch here (o texto é em inglês).

5) Na verdade, eu tinha 6 links nas abas do meu navegador. Então, para fechar os 5 do aniversário do blog, parto em dois: a) resenha de Danilo Kossoki sobre o filme/HQ Red. Cutuque aqui. b) biografia em quadrinhos da atriz Angelina Jolie, ex-Brad Pitt. Cutuque aqui. c) e acabou de chegar um terceiro link. A quadrinista Ana Luiza Koehler postou em seu blog um vídeo, legendado por ela mesma, sobre pintura de ícones.

terça-feira, novembro 09, 2010

O shopping center escheriano ou o Escher shoppingcenteriano de Santiago

Eu sempre me surpreendo com o Santiago. Depois daquelas famosas "Torres Trigêmias", eis que fico sabendo de outra reapropriação de um trabalho clássico de ilusão de ótica em um contexto contemporâneo. No caso, este aqui:


[cutuque com o mouse sobre a figura para vê-la ampliada]

segunda-feira, novembro 08, 2010

Fecha abas

Algumas abas se acumulam abertas no meu navegador de internet, abas com links de quadrinhos que fico deixando para postar quando tiver tempo. Com o intuito de desafogar a memória do meu notebook toda vez que o reinicio, me livro de alguns links postando-os abaixo.

"Um e-book especialmente para ler quadrinhos." (Cutuque aqui)

"Livro em quadrinhos mostra encontro de culturas na formação do Brasil." (Cutuque aqui. Importante: essa obra tem uma estratégia narrativa muito interessante.)

"Quadrinhos científicos." (Cutuque aqui, e leia com cuidado o informe número 2.)

"Vem aí a próxima piada - depoimento de cinco chargistas brasileiros sobre a charge no século 21." (Cutuque aqui).

quarta-feira, novembro 03, 2010

De Bologna para Porto Alegre: intercâmbio entre HQ-repórteres

No último dia, mais exatamente na última atividade do I Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos (28, 29 e 30 de outubro de 2010, em Porto Alegre), o vídeo abaixo foi apresentando ao público do evento. Editado pelo jornalista italiano Carlo Gubitosa, o vídeo mostra o trabalho do grupo de jornalismo gráfico que produz, na Itália, a revista Mamma. Legendas em inglês.



Logo após a exibição desse vídeo, ocorreu um dos momentos mais importantes do encontro: um intercâmbio Bologna/Porto Alegre. Pois eu e o Carlo conversamos via skype e gravamos um vídeo que foi exibido ao público presente no evento. É em inglês, sem legendas, mas está fácil de comprender. Segue abaixo.



É isso.

segunda-feira, novembro 01, 2010

Assista a palestras do I EIJQ (ou baixe)

O I Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos (28, 29 e 30 de outubro de 2010, em Porto Alegre) teve algumas atividades transmitidas via web, e agora esses vídeos estão disponíveis para download. Quem não pôde comparecer pessoalmente nem pôde acompanhar no dia, ou mesmo quem quer usar o material como fonte de pesquisa, pode baixar os dois vídeos correspondentes aos dois primeiros dias do evento. A única ressalva: não esqueça de sempre creditar os responsáveis pela organização, assim como o nome dos palestrantes e mediadores.

Segue abaixo a programação, com o link para os vídeos de cada dia.

Siga acompanhando o twitter @EIJQ para saber as novidades sobre o evento e sobre o Jornalismo em Quadrinhos em si.

28 de outubro de 2010 - Cutuque aqui para baixar. Ou assista abaixo.



19h30 | Goethe-Institut Porto Alegre

Palestra "A história do Jornalismo em Quadrinhos"
Ementa: história do gênero “Jornalismo em Quadrinhos”; o surgimento, a evolução e as principais características.
Palestrante: Aristides Dutra
Mediação: Felipe Muanis

20h30 | Goethe-Institut Porto Alegre
Palestra "Jornalismo em Quadrinhos: entretenimento ou profundidade?”
Ementa: debate sobre o Jornalismo em Quadrinhos ser uma maneira de amenizar temas difíceis, tornando-os digeríveis para o leitor, ou, ao contrário, uma nova forma de reportagem em profundidade.
Palestrante: Felipe Muanis
Mediação: Aristides Dutra

29 de outubro de 2010 - Cutuque aqui para baixar. Ou assista abaixo.



19h30 | Goethe-Institut Porto Alegre

Mesa-redonda "Quadrinhos: ficção ou não-ficção? - 1ª parte”
Ementa: discussão sobre se o desenho dá um caráter ficcional à reportagem ou se se trata apenas de uma nova linguagem – com enquadramento, cores, iluminação, sequência – aplicada ao jornalismo. De que modo essa linguagem insere-se nos critérios do campo do jornalismo?
Debatedores: Atak e Jens Harder
Com tradução simultânea
Mediação: Felipe Muanis

20h30 | Goethe-Institut Porto Alegre
Palestra "A informação na imagem"
Ementa: Spacca fala sobre o seu processo de pesquisa histórica para a realização do desenho de caráter não-ficcional, mostrando como o desenho, e não só o texto, pode ser uma fonte de informação para o leitor.
Palestrante: Spacca
Mediação: Aristides Dutra

Veja a programação completa do evento cutucando aqui. E cutuque acolá para ler o release.

quarta-feira, outubro 27, 2010

Assista AO VIVO ao I Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos

Nesta quinta e sexta-feira, quem não estiver em Porto Alegre também poderá assistir, das 19h30 às 21h30, ao I Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos (cutuque aqui para ler o release). E não só assistir; poderá, também, participar.

Antes de mais nada, vamos à informação principal:

PARA ASSISTIR À TRANSMISSÃO VIA WEBCAM DAS 3 PRIMEIRAS PALESTRAS MAIS A MESA-REDONDA, VOCÊ DEVE CUTUCAR AQUI.

O link fará você abrir o player que está instalado em seu computador. Você pode então regular no próprio player o tamanho do visor (ou visualizar em tela cheia). A partir daí, é só assistir.

Já a parte da interação será propiciada pelo twitter. Pois o EIJQ será transmitido também via texto. Quem quiser acompanhar as discussões e também enviar perguntas em tempo real para os palestrantes e a organização, basta seguir o @EIJQ. Quem comandará a transmissão é Rafael Balbueno, estudante do 8º semestre de jornalismo da UFSM.

É isso. Bom evento. Para todos nós!!!

quarta-feira, outubro 13, 2010

Cartaz do @EIJQ


Fundamental creditar quem trabalhou nessa linda obra:

Greta Lemos – layout do cartaz e produção da fotografia
Alejandro Martinez – desenho da marca do evento
André Simão – fotografia do cartaz
Maurício Gonçalves – arte-final da fotografia

terça-feira, outubro 12, 2010

PRESS RELEASE


O Brasil abre as portas para o Jornalismo em Quadrinhos

O Goethe-Institut Porto Alegre e a Feira do Livro de Porto Alegre serão o palco de um evento inédito: trata-se do I Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos. Durante os dias 28, 29 e 30 de outubro de 2010, quatro convidados nacionais e dois convidados da Alemanha estarão na capital gaúcha para debater a origem e os rumos desse novo gênero jornalístico. Haverá ainda uma mostra internacional de reportagens em quadrinhos, além da exposição "Comics, Manga & Co. - A nova cultura de quadrinhos alemães", dentre outras atividades. Algumas palestras serão transmitidas via web, ao vivo, para todo o Brasil, no blog www.cabruuum.blogspot.com. Também haverá cobertura no twitter @EIJQ.

Os convidados nacionais são: Aristides Dutra, Mestre em Jornalismo em Quadrinhos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Felipe Muanis, jornalista, ilustrador e professor da Universidade Federal Fluminense; Gilmar Rodrigues, jornalista, autor do livro-reportagem “Loucas de amor em quadrinhos”, sobre mulheres que se apaixonam por serial killers; e Spacca, desenhista e escritor de quadrinhos históricos. Os convidados da Alemanha são: Atak (Prof. Georg Barber), autor de quadrinhos de vanguarda, e Jens Harder, autor de reportagens em quadrinhos.

A organização é do Goethe-Institut Porto Alegre, em parceria com a Feira do Livro. A curadoria do encontro e da exposição de reportagens é do jornalista Augusto Paim. A programação completa e o currículo dos candidatos está disponível na seção "Eventos" do site www.goethe.de/portoalegre.

O Jornalismo em Quadrinhos – também conhecido como Jornalismo Gráfico – é uma modalidade jornalística relativamente recente. O principal nome do gênero é Joe Sacco, jornalista maltês que faz livros-reportagem em quadrinhos sobre conflitos étnicos.

segunda-feira, outubro 11, 2010

"Um outro pastoreio"


Se você olha a imagem acima e lê o release abaixo, fica difícil não sentir vontade de ter em mãos esse livro.

Detalhes sobre os autores, a obra e a coisa toda de lançamentos e como e onde comprar, você tem cutucando aqui e acolá.

***

"Graphic novel Um Outro Pastoreio: história em quadrinhos, literatura e artes visuais para contar uma jornada de fé e de imaginação.


Um Outro Pastoreio trata de duas jornadas. Iansã, a Deusa dos Ventos e das Tempestades, viaja ao Mundo dos Homens para resgatar Ogum, o Senhor da Guerra e da Tecnologia. Simão, um velho peregrino, parte em busca de sua fé na companhia de um menino. Mas não será uma tarefa fácil. É um tempo sombrio e desolador no qual uma horda de guerreiros invasores espalha terror e destruição. O futuro do Mundo dos Homens e dos Orixás depende do sucesso de Iansã e Simão. Eles precisam recriar a lenda de um escravo que tinha o dom de encontrar coisas perdidas, o Negrinho do Pastoreio.


Uma história brasileira e universal

É uma fábula sobre a procura da esperança e da fé. Ela trata de preconceitos, intolerâncias e de questões ambientais e, sobretudo, do poder da imaginação. É uma história original, livremente inspirada na lenda O Negrinho do Pastoreio – conhecida pela versão do escritor regionalista João Simões Lopes Neto, publicada no início do século XX.

A trama agrega também elementos da religiosidade afro-brasileira e da mitologia dos orixás. Deste modo, o projeto procura criar pontes entre a literatura, o folclore e as histórias em quadrinhos, valorizando a diversidade da cultura brasileira com uma visão contemporânea e universal.

Um Outro Pastoreio: quadrinhos, literatura e artes visuais

Indio San e dMart se debruçaram durante cinco anos na narrativa, que mescla fotografia, desenho, teatro de bonecos e ilustração digital. Um Outro Pastoreio é um trabalho no qual texto e imagem transitam entre a literatura e a arte sequencial: um diálogo que apresenta elementos tanto de um livro ilustrado quanto de uma graphic novel. A publicação é colorida, numa edição de luxo, impressa em papel pólen, capa dura e 208 páginas.

Os autores

O ilustrador Indio San é formado em design gráfico pela UFSM e trabalha no seu estúdio DsLab Laboratório de Desenhos. O roteirista Rodrigo dMart é músico e jornalista (TVErs), integra as bandas The Dancing Demons e Doidivanas."

sábado, outubro 02, 2010

Apurações alheias

É cada vez mais comum no jornalismo a modalidade do leitor-repórter: alguém que lê o jornal escreve algo, e o jornal publica. Ou o telespectador manda um vídeo que vai ao ar no telejornal ou site. Há discussões sobre a (i)legitimidade disso, mas, como fui acidentalmente envolvido por iniciativas assim, não vou entrar nesse mérito.

Sara Mota, leitora do cabruuum, me avisou de uma matéria que saiu na revista Raça Brasil sobre HQs africanas. Cutuque aqui para ler. Atenção: são 4 páginas!

Léo Foletto, outro leitor esporádico do cabruuum, além disso jornalista, me avisou de uma matéria que saiu no Estadão sobre o novo livro de Joe Sacco, grande nome do Jornalismo em Quadrinhos. Cutuque aqui para ler. São 2 páginas de entrevista!

segunda-feira, setembro 20, 2010

Diário de bordo, parte 2: a apuração

Ontem recebi uma notícia inusitada: o Esporte Clube Juventude, time de futebol que foi pauta da minha reportagem em quadrinhos, acaba de ser rebaixado para a Série D do Campeonato Brasileiro. Em 2007, o time estava na Série A.

Essa notícia é o mote para a segunda parte do meu diário de bordo, com reflexões práticas sobre o processo de fazer a reportagem em quadrinhos "Juventude: tempo de crescer".

(Se você não leu a primeira parte, cutuque aqui.)

A apuração

De maneira geral, posso dizer que a apuração de uma reportagem em quadrinhos tem pouca coisa de diferente da apuração de reportagens impressas convencionais. Pelo menos no que toca à experiência que tive com a minha primeira reportagem em quadrinhos.

Cheguei na cidade de Caxias do Sul, na serra gaúcha, no dia 1º de junho, uma terça-feira. Antes de ir, eu já havia pesquisado em linhas gerais a história do clube, como é de praxe - melhor já ir sabendo algumas coisas, de modo a usar o tempo de apuração para aprender outras. Ao chegar em Caxias, porém, tratei de já ir ao Estádio Alfredo Jaconi. No primeiro dia, meu objetivo foi unicamente me situar. Fiz uma visita guiada pela sala de troféus e pelo estádio. Nisso contei com a prestatividade dos funcionários do clube. O assessor de imprensa também me passou os contatos de algumas pessoas com quem eu pretendia conversar: jogadores, dirigentes, funcionários, torcedores, historiadores etc.

Para mim, o primeiro dia de apuração normalmente é isso mesmo: cruzamento de informações, reconhecimento do cenário e da cronologia da pauta, percepção de quem são os principais personagens e quais são os principais eventos da história que eu vou contar, e por aí vai. Também aí começa a edição: posso dizer que nesse primeiro dia já me ocorrem ideias sobre como editar a reportagem, embora eu esteja sempre pronto a descartá-las no dia seguinte conforme o andamento da apuração.

Na quarta-feira, passei mais algumas horas no estádio, apurando e já fazendo algumas entrevistas. Voltei lá na quinta-feira, e fiz outras tantas. E na sexta-feira de manhã, enquanto esperava a chegada da desenhista Ana Luiza Goulart Koehler, colhi os últimos depoimentos.

Essa é uma questão importante, a presença da desenhista. Desde o início, eu levantei a bandeira de que o desenhista é tão importante no momento da apuração de uma reportagem em quadrinhos quanto o jornalista. Afinal, eu busco uma narrativa original em quadrinhos, não uma adaptação de uma reportagem feita em outro formato. A diferença entre esses dois pólos - uma reportagem em quadrinhos e uma reportagem ilustrada - é sutil, mas existe. E manifesta-se principalmente durante a apuração.

Afinal, no jornalismo em quadrinhos a imagem traz tantas informações quanto o texto. Informações visuais e ambientação são, inclusive, muitas vezes liberados do texto para ir para o desenho. Sobre isso, vou falar melhor em outra parte deste diário de bordo. O importante é que, tendo em vistas essas minhas convicções, o desenhista precisava estar lá comigo para acompanhar os detalhes visuais da apuração, de modo a fazer desenhos mais fidedignos.

Em função de compromissos, a Ana só pôde me encontrar lá na véspera do meu retorno a Porto Alegre. Durante a semana, eu procurei tirar o maior número de fotos possíveis para embasar o trabalho dela, e nisso senti bastante dificuldade. Eu preferiria estar concentrado apenas na apuração, e a necessidade de fazer registros visuais me desconcentrava bastante - imagino o drama vivido pelos repórteres "abelhinhas", jornalistas de televisão que fazem toda a reportagem sozinhos, inclusive montando a câmera num tripé. Enfim, resumindo: eu preferiria que o desenhista estivesse lá comigo cuidando dessas questões. Como não foi possível, tivemos que adaptar.

Na sexta-feira, 4 de junho, a Ana foi ao meu encontro. Como eu sabia que ela viria, reservei a tarde para revisitar com ela alguns cenários importantes da pauta. Apesar de estar chovendo bastante, a Ana concordou que a presença dela lá, vendo com os próprios olhos o que eu vira nos últimos dias, dava a ela mais informações para desenhar. Porque uma foto nem sempre dá a sensação de profundidade e dimensão do espaço que o nosso olho percebe.

Ainda na sexta-feira, durante o almoço, expus para a Ana o que eu tinha apurado até ali - a história do Juventude e a narrativa do seu fracasso nos últimos anos. Juntos fizemos uma pré-edição da reportagem, uma espécie de decupagem dos assuntos apurados já pensando na sua distribuição nas páginas. Vou falar melhor sobre isso mais adiante, em outro tópico deste diário de bordo.

Antes de concluir, outro aspecto importante sobre a apuração - aspecto, no entanto, não exclusivo de reportagens em quadrinhos. Refiro-me à questão da tese que o jornalista leva para a apuração. Isso geralmente é apontado como algo ruim, quando diz respeito a uma tentativa do jornalista de manipular a realidade apurada para que o resultado confirme sua tese inicial. Eu confesso: eu tenho minhas teses quando vou para a rua. No entanto, a apuração é para mim um processo de questionamento dessas teses, onde pode haver modificações, ou confirmações, ou mesmo formulação de outras teses.

No caso dessa reportagem em quadrinhos, por exemplo, eu pensava que encontraria no clube um clima de abatimento, haja vista que o clube havia sido rebaixado para a Série C em 2009, depois de dois anos disputando a série B e, antes disso, treze anos seguidos disputando a Série A. Essa era a minha tese: o clima deve estar ruim no clube. No entanto, chegando lá, encontrei justamente o contrário: estavam todos muito motivados, esperançosos com a melhora do time. Se o Juventude não voltasse para a Série B em 2011, voltaria no ano seguinte. A ambição - mirabolante para alguns, razoável para outros - de comemorar o centenário do clube, em 2013, na Série A, parecia ser um fator motivador. Mas havia outras coisas e, de fato, no processo de apuração fui entendendo o porquê disso. Há explicações para os dois rebaixamentos do clube, depoimentos de torcedores e funcionários falando dos erros cometidos pelas gestões anteriores. Como em 2010 retornou à direção do clube a gestão responsável pelos maiores títulos do Juventude, era de se esperar que os erros fossem consertados. Daí a esperança.

O que encontrei lá, portanto, não foi um clima de abatimento, mas ao contrário: bastante otimismo e motivação. E eu estaria sendo injusto se, na reportagem, não relatasse isso.

Eu gosto bastante das reportagens que me fazem reformular minhas teses. Assim, no plural, porque nunca é uma única tese, e geralmente quando estou apurando estou também em constante avaliação das informações e de suas implicações, o que gera novas teses. Mas muitas vezes há uma tese geral, e essa tese geral é preponderante justamente por ser óbvia, previsível, resultado de operações lógicas. E quando essa tese é desconfirmada, desconfirma-se também os mecanismos da previsão. Nesses casos, sempre fico com a sensação de que a pauta cresce: afinal, por que não ocorreu o óbvio? O fato de o óbvio não ter ocorrido é a nova pauta, geralmente inusitada.

De modo que acho importante o jornalista ter suas teses, desde que durante todo o processo continue sendo apenas isso - uma tese, uma hipótese, algo a ser confirmado ou, conforme o caso, descartado. Considero negativa a tese que se impõe, ignorando a realidade e quase dispensando a apuração. Mas se o jornalista encara a tese como um processo em movimento, periga até fazer bem para a pauta.

(Continua.)

***

Ps.: a Ana Koehler escreveu seu próprio relato sobre o processo de fazer essa reportagem em quadrinhos. É muito interessante ter esse outro lado, a visão do desenhista, inclusive abordando a pesquisa realizada para se fazer os desenhos, que eu não pretendia abordar aqui. Ainda que a Ana já tenha avançado no post sobre outros aspectos da reportagem - aspectos que pretendo tratar mais adiante - recomendo a leitura. Cutuque aqui.

sexta-feira, setembro 17, 2010

Lucas da Feira

Eis o preview de um projeto brasileiro de quadrinhos de não-ficção que está para sair do forno em breve. A descrição segue abaixo.

"Sinopse

Quem foi Lucas da Feira? Até hoje não existem dados precisos que detalhem quem foi o negro que se rebelou contra a sociedade escravocrata em que viveu. Sabe-se que atuou nos arredores da atual cidade de Feira de Santana, nos começos do século XIX, atacando tropeiros que iam ou vinham da Feira do Gado. Alguns dizem que fazia isso para depois repartir com outros negros e pobres, outros afirmam que nunca passou de um psicopata desumano. Longe de responder a essas questões, a obra Lucas da Vila de Sant’Anna da Feira busca dialogar com diversas fontes, oficiais ou não, para mostrar uma história possível da personagem, suas motivações e assim reapresentar esse mito histórico brasileiro para os leitores do século XXI."

segunda-feira, setembro 13, 2010

Entrevista com Joe Sacco

Notícia ruim: a entrevista é em inglês, sem legenda.

Notícia boa: a entrevista não é em alemão. Nem japonês, chinês, persa, russo etc.

quarta-feira, setembro 08, 2010

sábado, agosto 28, 2010

Diário de bordo, parte 1: a pauta

Dou início hoje a uma série de postagens com relatos e reflexões a respeito do processo de produção da reportagem em quadrinhos "Juventude: tempo de crescer". Como Jornalismo em Quadrinhos é um gênero novo, que carece de estudos e práticas, acredito que minha experiência na área pode contribuir, nem que seja para gerar discussões.

Se surgir alguma dúvida ou questão que eu não previ, por favor, não hesite em escrever, via comentário.

Hoje vou falar sobre:

A pauta

fazia um tempo que eu azucrinava o editor da Continuum, revista bimensal sobre arte e cultura do Itaú Cultural, para que me deixasse fazer uma reportagem em quadrinhos. Você sabe, Jornalismo em Quadrinhos é algo muito novo, muita gente não sabe nem o que é (até mesmo quadrinistas e jornalistas têm dificuldade de definir o tema com precisão). Meu trabalho final na faculdade de jornalismo, que concluí em 2007, na UFSM, foi sobre Jornalismo em Quadrinhos. Desde então, eu vinha fazendo reportagens em prosa para a Continuum, e volta e meia eu trocava emails falando sobre meu interesse no quadrinho de caráter jornalístico. Pois bem, no ano passado eu e o Marco Aurélio Fiochi, um dos editores da revista, chegamos a falar a sério sobre a possibilidade de eu fazer uma reportagem em quadrinhos. Não fomos adiante, por questões técnicas.

No entanto, aquela conversa foi uma semente que eu esqueci que havia plantado. Eis que, no dia 25 de maio de 2010, para minha surpresa, recebi este email da Mariana Lacerda Gonçalves, coeditora da revista:

"Oi, Augusto, como está??? Bom, o Marco me falou que você tem uma ideia de fazer uma reportagem em formato de HQ. Nós gostamos muito da ideia e achamos que ela pode se encaixar na próxima edição, sobre futebol. A ideia central da pauta seria acompanhar dois ou três dias de treinos de uma equipe que caiu, que foi da primeira divisão e que hoje está na terceira, quarta divisão (será que em Porto Alegre existe alguma??). A narrativa dessa reportagem estaria contada via quadrinhos."

Ao ler o email, aumentou a quantidade de adrenalina no meu sangue. Explico por quê. Eu sempre defendi, observando as reportagens em quadrinhos que estavam sendo publicadas, que existem pautas adequadas ou não ao formato de quadrinhos. Isto é: existe a pauta boa para TV, a pauta de rádio, a pauta de impresso, todo estudante de jornalismo sabe disso. Ou, no caso de ser a mesma pauta, no mínimo a abordagem muda em função do meio em que a história será contada. que se estudar, então, os aspectos da linguagem dos quadrinhos que permitam delinear em que sentido uma pauta pode ser boa ou não para esse formato.

Isso não é mera divagação. Entre as autodenominadas reportagens em quadrinhos que vi publicadas, muitas me pareceram meras reportagens ilustradas (ou seja, aspectos como fluência e harmonia entre texto e imagem, importantes nos quadrinhos, não foram cuidados). Outras eram uma simples adaptação de reportagens feitas originalmente para outro formato, o que acusa uma visão rasa de jornalismo em quadrinhos: apenas uma forma de amenizar temas complicados (e não de aprofundar, que é como eu vejo). Muitas outras reportagens eram até bem intencionadas, tinham um conteúdo sério, pensado originalmente para quadrinhos, mas não havia o cuidado com a linguagem: o texto não pode ser excessivo, e o desenho tem que veicular informações e estar apegado à realidade tanto quanto o texto (senão, não é jornalismo).

Pensamentos como esse sempre me surgiam ao ver um novo trabalho sendo publicado, e me pareceu que uma reportagem em quadrinhos sobre um clube de futebol seria uma oportunidade perfeita para -los em prática - ou, devido à natural distância entre pensamento e ação, pelo menos testá-los. Em primeiro lugar, porque tem o aspecto visual do futebol, com muitas nuances e possibilidades de ser explorado na narrativa em quadrinhos. Também a expressividade dos desenhos, ótima para pôr no papel as emoções ligadas ao futebol. E, por se contar um tema pouco festivo - a derrocada de um time - abriu-se a chance de fazer uma reportagem humanizada, cuja linguagem dos quadrinhos contribuísse para a eficácia do trabalho jornalístico.

No email que respondi à Mariana, sugeri o Esporte Clube Juventude como case para a pauta. O Ju, como também é chamado, foi campeão da Copa do Brasil e disputou a série A do Brasileirão durante 13 anos, então é bastante conhecido no país inteiro. E vem passando momentos difíceis: no ano passado, foi rebaixado para a série C. Sem falar que o clube fica em Caxias do Sul, cidade localizada a 120 km de Porto Alegre, o que facilitava o deslocamento.

Fechamos a pauta. Próximo passo: achar o(a) desenhista. Indiquei como primeira opção a Ana Luiza Goulart Koehler, porque conheço e admiro o trabalho dela um bom tempo. O Itaú Cultural entrou em contato com ela; email vai, email vem, eles fecharam. Ficou definido ainda que os quadrinhos seriam em preto-e-branco, devido aos prazos (o dead-line para a reportagem finalizada era dia 1º de julho, e uma reportagem colorida demanda muito mais tempo). Também acertamos que seria uma história de 6 páginas

A partir daí, precisei organizar alguns tópicos sobre a forma de abordagem da pauta. Os meus objetivos passaram a ser:

1) contar a história do Esporte Clube Juventude

2) descobrir, dentro do possível, os motivos que levaram ao duplo rebaixamento do clube

3) relatar como é o astral do clube hoje, tendo em vista os recentes insucessos (parece óbvio que eu não encontraria um bom clima, mas, como vou comentar em outro post, deparei-me justamente com o contrário)

4) organizar todo o conteúdo decorrente da apuração de uma forma adequada à linguagem dos quadrinhos, justificando a escolha desse formato

5) dar um tratamento humanizado à pauta, ou seja, nada de exploração de tragédias alheias nem de otimismo do tipo "pra frente, Juventude!" - o que eu tinha em mãos era a possibilidade de contar uma boa história de sucessos e fracassos, coisa que diz respeito a todos os seres humanos.

Organizada a pauta, arregacei as mangas e comecei a apuração.

Mas isso é assunto para outro post.

(Continua.)