segunda-feira, julho 28, 2008

Agora o passo-a-passo

Como prometido, escrevo agora sobre o passo-a-passo da atividade de produção coletiva de HQs, que propus durante a oficina de quadrinhos que ministrei na escola Valentim Bastianello, no município de Dilermando de Aguiar/RS. Estive em turmas de quinta e sexta série, e em cada uma delas falei sobre uma etapa específica do processo de criação de uma história em quadrinhos, a citar: ARGUMENTO, DESENHO DE PERSONAGENS, QUADRINHOS e CORES/ARTE-FINAL. Poderiam ser mais fases, claro, mas separei em quatro porque foi o número de turmas que visitei.

Vou pegar uma das histórias criadas e explicitar as etapas da criação.

1. ARGUMENTO



"Homem-Sereia e Mexilhãozinho [diminutivo de "mexilhão"] são dois heróis, têm 20 anos. Eles estavam salvando a cidade de Eucaliptos do malvado Plankton. Eles lutaram e salvaram a cidade de Eucaliptos. Ficaram descansando em suas poltronas até terem que salvar a cidade outra vez. Observação: o malvado Plankton queria cortar os eucaliptos."

A maioria dos argumentos criados na primeira turma retratava uma história corriqueira, sem nenhum conflito nem transformação das personagens. Nesses casos, eu mostrava isso aos alunos (numa linguagem acessível, adequada à faixa etária) e perguntava a eles se não seria melhor haver uma situação nova, que apresentasse uma mudança em comparação com a situação inicial. No caso das "Aventuras de Homem-Sereia e Mexilhãozinho", o aspecto humorísitco do "ficaram descansando em suas poltronas até terem que salvar a cidade outra vez" supera qualquer ausência de conflito. Apenas sugeri que os alunos explicassem que tipo de risco o vilão Plankton oferecia à cidade de Eucaliptos. Os meninos mesmos tiveram a idéia e escreveram a observação ao fim do argumento.

2. DESENHO DAS PERSONAGENS

Se a outra turma estava lidando com fundamentos de narrativa, a turma responsável pela segunda etapa do processo de criação coletiva da HQ trabalhava agora com imaginação, visualização. Os alunos tiveram que desenhar as personagens citadas nos argumentos. Para isso, além do ato de tirar a história do papel, era necessário uma visão do conjunto, de modo a não prejudicar o trabalho de quadrinização da turma seguinte.

No grupo que pegou a história das "Aventuras", uma menina chegou muito facilmente à forma da personagem Homem-Sereia:




O desenho mais difícil talvez fosse da personagem "Mexilhãozinho", mas a tarefa caiu nas mãos de uma menina criativa:




As tarefas foram divididas expontaneamente dentro do grupo, e a terceira menina ficou com a incumbência de desenhar o vilão Plankton. Houve várias tentativas e certas dificuldades, mas ao fim se chegou a este resultado:


3. QUADRINHOS

Não havia dúvida de que o processo de quadrinização - ou seja, pegar o argumento e os desenhos das personagens, juntá-los e transformar tudo isso numa ou mais páginas de história em quadrinhos - seria a etapa mais difícil (apesar de também a mais prazerosa). Agora os alunos tinham de acionar o pensamento imagético e também lidar com elementos de estrutura narrativa, alguns específicos da linguagem dos quadrinhos.

Tendo já cumprido metade dos encontros que me propus a fazer nessa escola e sabendo que até aquele momento a produção coletiva das HQs estava dando certo, temi que agora as coisas desandariam. Decidi dedicar mais tempo à atividade prática, portanto, ainda assim preparado para que o processo fosse interrompido ali. Para minha surpresa, deu tudo certo.

A primeira página das "Aventuras" começou a tomar forma assim:



E a segunda página:



Agora uma visão geral do grupo responsável por quadrinizar as "Aventuras", para ver como se subdividiam as tarefas entre eles:



O menino que lê

Pausa.

Pausa para falar desses pequenos grandes retornos que recebemos e que valem toda a dedicação que empenhamos.

A foto abaixo mostra um menino da quinta série lendo um livro da Turma do Xaxado.



Até aí, uma foto normal. Mas só se ignorarmos o fato de que esse menino absolutamente ODIAVA LER. Fiquei sabendo disso por intermédio dos professores, que inclusive tiraram a foto para registrar o momento único.

E não foi uma leitura casual. O grupo do qual esse menino participava já havia terminado a HQ, então ele me perguntou se podia pegar um dos livros que estavam na mesa dos professores, onde pus o material que trouxe. Enquanto os outros grupos trabalhavam, o menino se concentrava na leitura.

4. CORES/ARTE-FINAL

A última parte do processo de construção coletiva da HQ era relativamente mais simples, mas de suma importância. Os alunos não só tinham de marcar com caneta esferográfica e canetinha os traços dos desenhos e dos quadrinhos feitos pela terceira turma, além de pintá-los; era ainda um trabalho de revisão. Afinal, essa era a quarta e também a última turma a mexer com a HQ antes de ela ser publicada no mural da escola. Uma grande responsabilidade, portanto, já que havia problemas de falta de clareza e desenhos inacabados para resolver, antes de a história ir a público.

Deu tudo certo e, no fim, a HQ "Aventuras de Homem-Sereia e Mexilhãozinho" ficou assim:





Outras histórias

Usei o exemplo de "Aventuras" para construir um passo-a-passo porque as imagens estão boas e também porque ela constitui uma boa amostra do que surgiu na oficina, em termos de idéias e desenhos. É importante, porém, mencionar que outras seis histórias foram criadas, trabalhando gêneros variados como romance, aventura e comédia. Vale lembrar que a escolha dos temas foi mérito da primeira turma, que criou os argumentos por conta própria, sem minha interferência.

Um desses argumentos me chamou bastante a atenção. Chama-se "A guria que tinha medo".


É a história de uma menina que tinha medo de ficar sozinha e também sentia uma desconfiança geral e desmedida dos seus amigos. Um certo dia, ficando a sós em casa, sentiu medo. Depois viu que o temor passava ao ligar o rádio e que, de certa forma, ao ouvir os passarinhos cantando lá fora ela não estava mais sozinha. Ao se dar conta disso, ela passou a viver em harmonia com seus amigos, sem desconfianças.

É uma história sobre aprendizado, com fundo psicológico. Isso mostra na prática que os quadrinhos são uma linguagem e que, portanto, servem para contar as mais variadas histórias, não importa o grau de complexidade e o tema.

Atividade crítica

Me interessava bastante, fora de simplesmente fazer trabalhos separados com cada turma, que houvesse uma reflexão sobre o processo coletivo de fazer uma HQ - reflexão sobre valores como confiança em si mesmo e no próximo, respeito pelo colega , espírito de grupo e solidariedade - e também sobre o uso da linguagem dos quadrinhos e do trabalho com narrativas em geral. Também buscava um incentivo à criação artística, mostrando aos alunos que, agindo de maneira organizada e unindo forças, eles podem criar e se expressar. Em quadrinhos, principalmente.

Eu tinha esse objetivo mas não sabia se o cumpriria. Precisaria de mais tempo, de mais discussão, de continuidade. Em todo caso, registrei em vídeo o momento em que alunos do grupo que fez um dos argumentos via agora a HQ pronta, publicada no mural da escola. A reação me parece muito rica.

video


É isso. Mais do que refletir aqui sobre a minha experiência com essas oficinas (sim, porque este post e os outros que o precederam têm essa função, e eu não me ressabio nem um pouco com isso - ao contrário, até me encho de orgulho!), penso que relatar essa experiência pode servir para outras reflexões e aprendizados, não só meus. Aliás, publico este post até mesmo para refletir e aprender mais, com novos olhares e leituras sobre essas experiências. Além de esperar ouvir retornos sobre as suas próprias!

Bem, é isso!

sexta-feira, julho 25, 2008

Mais sobre as oficinas

Hoje voltei a Dilermando de Aguiar/RS e ministrei a oficina de quadrinhos para mais duas turmas, uma de 5ª e outra de 6ª série.

Trouxe para os alunos exemplos de HQs que fogem do esquema "personagens infantis" e "super-heróis". Não desmerecendo esse tipo de gibi, claro, apenas dando mais opções aos alunos. Quer dizer, mostrando a eles que há toda uma possibilidade de obras no formato de quadrinhos atendendo a todos os gostos, interesses, culturas, idades e sexos.

Nas fotos abaixo, por exemplo, as crianças folheiam as reportagens em quadrinhos do mundialmente reconhecido Joe Sacco; as histórias estilo rock'n'roll das cariocas Mosh! e Jukebox; a HQ Estórias Gerais, que retrata o sertão mineiro; e uma porção de trabalhos da Turma do Xaxado. Também apresentei a eles a forte e complexa Maus, em que o autor Art Spiegelman conta como seus pais sobreviveram ao Holocausto; as teorizações em/sobre quadrinhos de Scott McCloud; os contos em quadrinhos de grande profundidade da revista mineira Graffiti; e a adaptação para quadrinhos do romance de Alcy Cheuiche sobre o índio Sepé Tiaraju, um herói da história do Rio Grando do Sul; dentre outros.


Essa foi uma parte do trabalho, cujo objetivo foi o de ampliar o leque de possibilidades de leituras de quadrinhos para os alunos. Os professores, que não conheciam a maioria das obras, também foram atingidos pela idéia e ao fim planejavam modos de usar esses quadrinhos em sala de aula.

A outra etapa foi uma "discussão prática" sobre a linguagem dos quadrinhos. Em suma, incentivei os alunos a criar HQs coletivamente, simulando um estúdio. Como ministrei a oficina em quatro turmas, deixei cada uma delas encarregada de uma parte do processo. Aqui aparecem as três primeiras, no quadro negro:


Explicando melhor. A primeira turma que visitei foi dividida em sete grupos. Cada um desses grupos criou um ARGUMENTO para uma história em quadrinhos. A turma seguinte foi novamente dividida em sete grupos, que fizeram o DESENHO DAS PERSONAGENS que apareciam nos argumentos anteriores. Ou seja, essa segunda turma deu andamento ao trabalho da primeira.

Na terceira turma, os argumentos e os desenhos das personagens foram transformados em QUADRINHOS. Um processo difícil, já que envolve muitas questões da linguagem dos quadrinhos ao mesmo tempo, mas acabou dando certo. À quarta turma coube o trabalho com CORES/ARTE-FINAL. Ou seja, o fechamento das HQs. Essa quarta fase não está escrita no quadro-negro justamente porque no momento da foto eu estava falando sobre ela para os alunos.

Depois dessa explicação toda, fotos da prática:








Em breve, pego uma das sete histórias criadas e publico aqui o passo-a-passo dela.

quinta-feira, julho 24, 2008

Oficinas

Passei alguns dias sem postar neste humilde blog. Estava de mudança, de Porto Alegre/RS de volta a Santa Maria/RS. Fiquei sem computador em casa.

E nesta semana estou envolvido com atividades de quadrinhos. Ontem, por exemplo, estive na escola Valentim Bastianello, no município de Dilermando de Aguiar/RS, ministrando oficinas de HQ para crianças de 5ª e 6ª série. Algumas fotos:





Já hoje estive na cidade de Tupanciretã/RS, interagindo com alunos de 5ª a 8ª série da escola Alexandrina Soares de Barcelos. No fim, distribuí revistinhas da Turma do Xaxado entre os pequenos, das séries iniciais e da pré-escola.






Amanhã volto a Dilermando de Aguiar, onde vou ministrar mais duas oficinas. Não usarei o mesmo blusão vermelho. Eheheheh.

Em breve, publico aqui detalhes e reflexões sobre essas experiências no interior do Rio Grande do Sul. Hoje é só para registrar mesmo.

domingo, julho 13, 2008

Quadrinhos e emergência

A revista Continuum, do Itaú Cultural, publicou este mês uma história em quadrinhos de Júlio Brilha sobre o tema "emergência". Trata-se do conceito que explicita a idéia de sistemas complexos surgidos a partir de regras simples - como um jogo de xadrez, que tem ordens básicas regulando o movimento de cada peça, mas que resulta em partidas complexas.

A história em quadrinhos está disponível aqui!

Para quem ainda não conhece, a Continuum é uma publicação mensal do Itaú Cultural, distribuída por mailing e disponível também na sede na Av. Paulista, em São Paulo. A edição impressa é publicada integralmente no site do Itaú Cultural, acrescida de matérias feitas exclusivas para a internet. Veja aqui! Cada edição tem um recorte temático diferente.

terça-feira, julho 08, 2008

Saindo da seca prum manancial...

O cartunista Jô X, criador voluntário e não-remunerado da marca do cabruuum que você vê no topo desta página, acaba de ganhar seu primeiro prêmio. E internacional, ainda por cima.

Pois o Jô tirou o primeiro lugar no concurso “Seca e Água”, da Turquia. Detalhes você tem cutucando aqui.

Já o cartum, você vê aqui:



Independente do prêmio internacional, Jô demonstra visão de futuro já há pelo menos dois anos, quando desenhou a marca deste humilde blog. Ehehehe.

Pena que eu não tenho um troféu nem premiação em dinheiro para entregar...

quarta-feira, julho 02, 2008

Heróis da publicidade

Se é pra fugir do tema, então vamos fugir mesmo!



Se bem que "super-heróis" sempre vai remeter à palavra "quadrinhos", nénão?!

Ah, a publicidade do Axe é merschandising gratuito, viu! É que o vídeo é realmente criativo, além de apresentar as onomatopéias de um jeito diferenciado. Vale a pena assistir!

Do tempo da internet a carvão...

Permita-me fugir um pouco do enfoque deste blog!

Um pouco, mas não muito. Pois este vídeo mostra o modo como eram feitos livros em 1947:




Seria igualmente interessante saber como era o processo antigo de publicar HQs.

terça-feira, julho 01, 2008

Penso, logo visito!

Antes de mais nada, veja isto! É o blog Filosofia em Quadrinhos, de Paulo Quaresma Neto e Walter Paiva.

Veja especialmente a citação da Alegoria da Caverna de Platão numa HQ de Maurício de Souza, cutucando aqui!

E veja também um trecho da versão em quadrinhos do pensamento de Descartes, cutucando aqui! Esse trabalho é de autoria do Paulo e do Walter.

É isso. Acho que o blog se recomenda por si mesmo, não?

Não pense duas vezes, vá já visitá-lo!