domingo, julho 09, 2006

Um herói à brasileira (mas sem nenhum sentido pejorativo)


- Se for pensar em histórias em quadrinhos, finalmente os romanos venceram os gauleses...

Grande Galvão Bueno, sem ter absolutamente nada para falar depois que a Itália ganhou a Copa. Pelo menos fez um bom gancho. Estava se referindo às histórias do Asterix (esse aí do lado), personagem criado pelos franceses Albert Uderzo e René Goscinny.

***

Mas é só pra registar mesmo. Pois o assunto de hoje é outro.

Eu recebi, já faz um tempo, esta notícia do companheiro Zema Ribeiro, lá do Maranhão (ele que escreveu, ele que me enviou):

Delito de uma gangue de bons desenhistas
[Jornal Diário da Manhã, 17/03/06]

Iramir Araújo, acompanhado de outros bambas do universo HQ brasileiro, lançam hoje o álbum “Corpo de Delito”, que reúne, entre inéditas e já publicadas, diversas histórias do delegado Augusto “Caolho” dos Anjos, já um clássico dos quadrinhos maranhenses.

Preto e branco é um charme. Seja na tv, no cinema e, principalmente, nos quadrinhos. O crime, quando ficção, também é um charme. Há até quem ache que o crime compensa. E talvez compense mesmo. Ou não? O criminoso da vez é Iramir Araújo. Sim. D
eve ser crime ser talentoso no Maranhão, não sabiam, caros leitores? A reclusão/pena é o total desconhecimento por parte do público. Pois é. Criminosos, ele e uma “gangue” que arregimentou: Beto Nicácio, Marcos Caldas, Bruno Azevedo, Ronilson Freire, Carlos Sales, Salomão Júnior e Luiz Saidenberg. Este último, reconhecido nacionalmente, Iramir conheceu virtualmente: “Há tempos escrevo sobre quadrinhos. Um dia escrevi sobre um trabalho dele e o texto, de um jeito ou de outro, caiu-lhe nas mãos. Começamos a trocar e-mails e, tempos depois, ele pediu para desenhar um roteiro meu. O resultado está aí”, conta, sobre uma das histórias que compõem o álbum “Corpo de Delito”, que será lançado hoje, às 19h na Galeria de Arte do SESC (Av. Gomes de Castro, 132, Centro).

“Corpo de Delito” reúne diversas histórias, entre publicadas e inéditas, de Augusto “Caolho” dos Anjos, delegado de polícia criado por Iramir Araújo e publicado pela primeira vez em 1982. Qualquer semelhança entre o delegado, obra da mente criativa de Iramir, e o poeta paraibano, dono de versos como “o beijo, amigo, é a véspera do escarro, / a mão que afaga é a mesma que apedreja”, não são meras coincidências: ambos são, para usar um lugar-comum, malditos. Caolho é um obstinado que não brinca em serviço. E não brinca, mesmo quando está brincando: no álbum, encontramos o personagem, por vezes, largando uma cerveja gelada pelos bares do Centro Histórico ludovicense – a Ilha de São Luís é palco de todas as aventuras ali narradas – para manter a ordem. Caolho combate ferozmente traficantes de drogas, de órgãos, ladrões, estupradores.

[o personagem Augusto "Caolho" dos Anjos, na versão de Beto Nicácio]

Caolho é um super-herói, sem superpoderes ou cuecas por cima das calças. Surgido nos mesmos becos e ruas onde combate crimes em São Luís, é, como disse Euclides da Cunha sobre o nordestino, “antes de tudo, um forte”. Iramir Araújo comete o pecado – ou crime, como já dito anteriormente – de ser talentoso em São Luís do Maranhão. Mas é, também, antes de tudo, um herói: o herói dos roteiros de “Corpo de Delito”, verdadeiro cinema impresso.


Pois bem, o Zema me mandou pelo correio um exemplar da revista "Corpo de Delito" (diz ele que veio de jégui, pois demorou um tempão pra chegar). Daí que li e posso dizer o seguinte:

* a revista foi impressa em papel jornal, com o apoio do jornal O Estado do Maranhão. Os desenhos, muito bem feitos, são em preto e branco, como já foi dito. Segundo o Scott McCloud, autor do livro Desvendando Os Quadrinhos, as imagens em preto e branco favorecem as idéias de uma história. Desenhos com cores planas (ou seja, sem gradações) dão mais ênfase ao lúdico. No caso da "Corpo de Delito", acredito que, se a revista fosse colorida, sairia valorizada. Afinal, o enredo das histórias dá ênfase à ação. Mas claro que publicar em cores não é nada barato...

* no prefácio, Clóvis Cabalau, editor do caderno cultural do jornal O Estado do Maranhão, faz uma associação entre o delegado Augusto dos Anjos e o detetive The Spirit (esse aí do lado), criado pelo supra-sumo dos quadrinhos, o norte-americano Will Eisner. Pois ambos os personagens não têm super-poderes, não usam a cueca por cima da calça e às vezes perdem no final. Além de quê, as duas obras fazem referência à linguagem dos cinemas. E The Spirit também começou em papel jornal (só que num jornal mesmo, não numa revista);

* uma coisa que não me saiu da cabeça: as histórias do Augusto dos Anjos têm um público bem definido, no meu ver (ressaltando sempre o "no meu ver", pois você pode e tem o direito de pensar diferente): leitores que apreciam histórias de ação, principalmente aventuras policiais. Eu, que busco temas singelos ou que proporcionem reflexão (nem que seja sobre a própria linguagem que está sendo usada), não me atraio por histórias assim. No entanto, há audiência para narrativas desse naipe, inclusive acho que elas têm um papel importante. Que bom, então, que alguém esteja fazendo isso aqui no Brasil. Personagens da nossa terra, nos nossos cenários, resolvendo problemas mais a ver com a nossa realidade. Isso deixa a leitura bem menos fantasiosa do que ler algo que acontece lá do outro lado do mundo.

É isso. No fim, "Corpo de Delito" acabou me provocando uma certa reflexão.

Um comentário:

zema ribeiro disse...

valeu, paim! gostei da reflexão, ahah... abração!