segunda-feira, setembro 11, 2006

76% cem porcento

Está aqui na minha frente, ao lado do monitor, a revista mineira Graffiti (o slogan estampado na capa é "76% quadrinhos"). Eu soube que essa revista existe em dezembro, lá em São Paulo, por meio do jornalista Israel do Vale, que conhece a turma que faz o periódico. O Israel foi nosso editor no Laboratório de Jornalismo Cultural do programa Rumos, do Itaú Cultural.

Pois bem, passaram-se os meses, eu esqueci da pauta. No meio de julho, porém, numa banca montada no chão com panos esticados, lá em Floripa, durante a reunião anual da SBPC, encontrei a edição número 13 da Graffiti pra vender. Comprei.

Essa introdu-enrolação não é à toa, não. É pra explicar como a revista é de gabarito e, ao mesmo tempo, como é difícil encontrá-la. Tanto é que só posso deixar o link de um site que diz que tem pra vender, além da opção de compra pelo próprio site da Graffiti.

Outra coisa: eu geralmente me pego pensando em como abordar as pautas aqui no blog de um jeito diferente. Não diferente assim, só pra ser diferente mesmo, fazer um auê. É que há pautas que já são bem exploradas, já saíram nos principais veículos de HQ e, no meu ver, eu não tenho por que ficar repetindo tudo aqui. Daí mando o link; se você se interessar, vai lá e lê mais.

Hoje eu vou fazer bem isso. Eis o link pro site da Graffiti. Numa breve olhada, você já vai se dar conta que não é algo do além: quem faz a revista tem conteúdo, disso não há dúvida. Isso fica ainda mais evidente na leituras das histórias em quadrinhos: é certo que todos os quadrinistas têm uma formação (literária, principalmente) bem ampla. O difícil é mostrar isso pra você, sem a revista.

Mas a tenteada é livre. Daqui pra baixo, eu vou pegar história por história da Graffiti nº 13 e tentar ressaltar aquilo que eu percebi. Logicamente, é apenas o que eu pude perceber, não tudo o que pode ser percebido (e há casos, admito, em que ainda não tenho alfabetização o suficiente em leitura de imagens pra poder captar tudo que envolve a história). Também vou colocar breves ilustrações nos comentários, já que a minha amiga Angélica Lüersen se prestou hoje a brigar com pilhas e tomadas na tentativa de fazer sua máquina fotográfica digital funcionar e, assim, deixar este post muito mais bonito (pois, convenhamos, só os textos seriam um saco!) Enfim, lá vai:

"Agulha"
É uma mistura de colagem, desenho e texto. Nesse caso, a minha limitação falou mais alto: não saberia mais o que dizer. Mas o secretário da Grafar, Eugênio Neves, quando lhe mostrei a revista disse: "Que bela composição!"


[um pedaço da página]

"Metamoresia"
Uma bela história, muito bem desenhada, como todas as histórias da Graffiti (o que me chamou atenção foi o fato de essa alta qualidade gráfica estar associada à mesma altura de qualidade narrativa, em toda a revista). Metamoresia conta uma lenda (ou mito, não sei bem a diferença) ocorrida numa pequena aldeia. É uma história fantástica, que fala de poesia, amor, transformação. Interessante é o fato de o título aparecer somente na última página, bem diferente do que costuma acontecer na maioria das HQs. Nesse caso, essa ousadia casou perfeitamente com o teor da história.

[a última página - não há perigo, pelo estilo da história, de eu estragar tudo contando o final]


"A metamorfose do coração"
Na verdade, não é uma HQ, mas sim uma entrevista com o italiano Giuseppe Bagnariol, médico que tem uma visão bem metafísica, misturando noções de espiritualidade, sobre a medicina. É realmente muito interessante, mesmo que em algumas partes do texto você pense: "Isso eu não concordo!". O início me chamou a atenção, por falar da metamorfose como um símbolo da transformação do ser humano, tanto na literatura quanto na mitologia. Ao que parece, a entrevista representa os 24% da revista que não são quadrinhos. Então compensa!

"A morte do guarda-livros"
Quatro páginas, dois quadros em casa uma, com o texto-legenda embaixo. Lembra a tela de um cinema. O guarda-livros está datilografando, na máquina de escrever, seu testamento. O que escreve soa como um deboche à burocracia.

[um dos quadros que, isolado, parece meio depressivo]


"Esofromatem-a"
Uma paródia da famosa obra "A metamorfose", do Kafka (o título da HQ é justamente o nome do livro de trás pra frente). Em vez de acordar transformado em inseto, Gregor Samsa "encontrou-se em sua cama metamorfoseado num monstruoso ser humano". Ehehehe. Não há necessidade de dizer mais, né!

[Gregor acordando]


sem título
E praticamente sem palavras. Uma história muito colorida, que sabe explorar muito bem os recursos de produção de sentido no uso de cores. Bastante simbólica, também. Um mago coloca um relógio em seu caldeirão e tira um coração. Numa mesa de operações, o médico abre o tórax do paciente e se surpreende por encontrar lá um relógio, no lugar do miocárdio. O médico pega o objeto na mão e comenta: "Está partido!"

(O coração? O relógio? Os dois?)

Por quase não ter palavras, principalmente por isso, essa história te deixa pensando, pensando, pensando...

"Transmutações políticas"
A prova cabal das potencialidades da linguagem de histórias em quadrinhos. Cada quadro dessa história (que começa falando de coelhos e termina em Brasília, num enredo extremamente amarrado, uma obra exemplarmente aberta) faz referência a muitos conhecimentos prévios do leitor, faz ironias de alto nível e tem uma ousadia gráfica tão notável (e tudo isso está tão coeso) que manda pro beleléu qualquer noção de que história em quadrinhos é coisa pra criança. Você precisa de uma boa base para poder ler "Transmutações" e perceber as referências à psicologia, à literatura, à arquitetura... E tudo isso em somente quatro páginas!!! Confesso, fiquei realmente impressionado...!


[difícil achar um quadro que resuma tudo o que quero mostrar...]


sem título
Um conto em quadrinhos. Uma obra com clima, que reverbera depois de terminada. Enfim, literatura!

Os desenhos, lembrando xilogravura, são em preto e branco, cheio de penumbras. As narrações associam a um ritual antigo ("os jovens mostram respeito aos mais velhos", "o jovem guerreiro se banha no sangue da primeira presa") e alguns dos balões, num bela e criativa solução gráfica, são ilegíveis (pois, no contexto da história, realmente não importa o que está sendo dito pelo personagem, mas sim que ele está dizendo alguma coisa).


Um senhor está pintando uma moça em seu ateliê. No meio da história, o velho vai ajeitar um pano na modelo, nua: "Previsível como as lendas, o pano cai. O rei está nu. A fonte da vida está a um palmo. O cheiro da floresta úmida."


"O caminho de volta até minha poltrona é de kilômetros [sic]. E sou, de fato, enfim, um homem velho quando sento nela. Depois é tudo muito rápido. Uma história longa fácil de resumir. Namorado. Grávida. Dinheiro. Antigo como a terra."

Agora a frase que me significou muito: "Como sabemos que algo mudou e acabou?"

Aí a resposta: "Gestos. Sinais. Palavras. Símbolos. Oferendas."

Eu diria: poesia pura!!!

"Verdades tropicais"
Uma versão parodiosa da famosa história de um náufrago que vai parar em uma ilha de canibais. O que achei interessante é que o autor desenha o "bilau" e a "tcheca" dos personagens (afinal, todos nós temos nem que seja um desses órgãos, então por que não desenhá-los, hein?!?!). E ele faz isso dum jeito bem inocente, não pornográfico (você não achava que todos os personagens dos gibis não tinham sexo? Nunca mostravam, ora!!!).

"Film noir"
Uma porção de quadrinistas pra quem mostrei a Graffiti durante o 3º Cartucho, o Encontro de Cartunistas Gaúchos, olhou a capa da revista e disse: "É um desenho do Guazzelli!". O Guazzeli é gaúcho e bem conhecido. No caso da edição número 13 da Graffiti, a sua história bem surreal foi escolhida para terminar a revista e ser capa e contracapa da edição. Trata-se de um autor com estilo!



***

É isso. O que eu posso dizer, pra resumir, é que essa é a melhor revista de HQ que já tive em mãos. Justamente por eu há tempos acreditar que os quadrinhos têm um potencial artístico enorme que pode ser utilizado para passar mensagens profundas, complexas, como em grandes obras da literatura. A Graffiti, portanto, tirou isso do meu ideal e colocou em prática.

2 comentários:

Ane disse...

Cara, muuuuito boa essa revista pelo q li aki e pude ver no site dela. Dei uma vasculhada rápida no site a procura da esdição q tu comentou aki para poder entender + o q tu dizia, mas só achei a entrevista do Giuseppe Bagnariol, mt legal o texto, bem convincente, hehehehe, gostei especialmente qd ele fala das mutações, principalmente dos transgênicos, q é uma questão extremamente importante e acho q pouco discutida.
Fikei com mt vontade d ler a revista, talvez compre uma pelo site, heheheh (tá ganhando um por fora, né!?) ela me lembrou a revista O Dilúvio, mas ela ñ é d HQ, mas tem textos mt bons tb.
T+

Pablo Pires disse...

Bom, agradecemos os elogios. A luta é a mesma há quase 11 anos (a número 0 é de dezembro de 95, depois de meses parindo-a). E é incrível que continuamos a não distribuir de verdade. Algum candidato a representante aí nos pampas???
Pablo
da equipe da Graffiti