sexta-feira, junho 27, 2008

Quadrinhos adultos para crianças

O campo de atuação para um adulto que quer trabalhar profissionalmente com quadrinhos é amplo e variado. Feliz é quem cedo descobre isso e vive as maravilhas não ligadas exatamente ao trabalho de produzir uma HQ. Quer dizer, se você não desenha nem roteiriza, nem por isso precisa deixar de fazer parte desse meio. Se por acaso você desenha/roteiriza, pode além disso ter sua experiência enriquecida atuando em outras funções.

Acredito que a realização se dá justamente em poder atuar de diversos modos dentro de um único campo, economizando energia (pois trabalhar em áreas distintas é muito desgastante) e ao mesmo tempo desenvolvendo habilidades pessoais diversas.

Alguns exemplos de como alguém pode se relacionar com os quadrinhos:

* Escrevendo roteiros - isso envolve o aprimoramento de habilidades narrativas e muito estudo de teorias literárias. É ótimo para quem gosta de falar sobre coisas humanas para seres humanos, para quem sente vontade de registrar suas observações sobre a vida de forma a que os outros também se interessem por ler.

* Desenhando - pegar uma idéia e transformá-la em imagens, com os simbolismos e as regras específicas desse pensamento visual aplicado à narrativa de quadrinhos. Fazer uma narrativa visual bem feita não é para qualquer um, envolve muito estudo, disciplina e amadurecimento. É ideal para quem visualiza cenas, imagens e símbolos não verbais para tudo que pensa. Claro que isso também pode ser desenvolvido, você não precisa necessariamente nascer com essa facilidade.

* Pesquisando - um trabalho fundamental, como forma de construir, consolidar e ampliar conhecimento na área, seja em estudos de narrativa, seja em estudos culturais, seja em estudos de ideologia. No fim, todos os outros profissionais dos quadrinhos vão se voltar para o trabalho de pesquisa, principalmente como forma de consulta e aprendizado.

* Criticando - essa é, disparada, a tarefa mais ingrata. O crítico, por mais que procure ser prudente, por mais que pese toda a responsabilidade que sua crítica pode ter na formação do artista e se preocupe em apontar as falhas e destacar os méritos da obra, ainda assim está sujeito a ser mal compreendido. Nada mais natural, em se tratando de algo que envolve tanto investimento afetivo por parte do autor. É assim que entendo a tal da "vaidade" autoral: algo saudável, sim, porque o artista precisa se envolver emocionalmente com a obra que produz. Só vira doentio quando a crítica é mal interpretada, despertando fúrias, o que não era a intenção do crítico (por que raios ele "falaria mal" só por falar? por que raios o crítico quereria mal ao artista?) Enfim, fazer crítica é uma função muito fundamental do campo, porque ajuda a compreender obras mais complicadas e aponta caminhos para aqueles artistas que ainda não dominam determinada linguagem narrativa. Mas dificilmente o artista entenderá assim. E não estranhe se ele levar para o lado pessoal...

* Comercializando - sim, quem tem habilidades de empreendedorismo e gosta disso pode continuar em contato com quadrinhos e ainda assim visar ao lucro. Como? Criando uma loja especializada em quadrinhos, por exemplo. Lojas assim são necessárias porque atendem a todos: artistas, críticos, pesquisadores...

* Formando público - talvez o trabalho mais gratificante. E é aí que quero chegar, é esse o motivo de existir este post.

Pois hoje estive no Colégio de Aplicação da UFRGS ministrando uma oficina de quadrinhos para alunos de sétima e oitava série. Foram na verdade duas oficinas, abrangendo 90 alunos no total. Cada oficina foi separada em dois módulos, o primeiro abordando as possibilidades de uso pedagógico dos quadrinhos e o estudo de elementos dessa linguagem, e o segundo focando em exemplos de quadrinhos que ultrapassam (e de longe) a barreira dos "quadrinhos para crianças". Claro que na prática foi algo bem mais divertido do que essa nomenclatura toda.

Foi um trabalho de formação de público. E foi riquíssimo, tanto para os alunos quanto para mim. A coisa toda aconteceu numa bagunça que só vendo (e é assim mesmo que acontece, me disseram as professoras). As crianças interrompiam, faziam perguntas, cochichavam, comentavam e na maior parte das vezes chegavam sozinhas e rapidamente às conclusões que eu queria conduzi-las. Chegavam lá antes mesmo de eu completar meu raciocínio. Às vezes, até tive que deixar elas falarem e só ajudar com pequenas observações. Outras vezes nem isso. E em alguns momentos a troca foi tão doida que os alunos acabaram me fazendo ver coisas que até então eu não tinha visto. Em suma, construímos conhecimento juntos.

E isso é impagável.

Eu já havia dado oficinas de quadrinhos para colegas universitários (do tempo que eu ainda era um) de outros cursos, não só das ciências humanas. Já havia palestrado sobre algumas das principais idéias dos quadrinhos para artistas plásticos e professores dessa área. Sempre é legal. Mas para crianças, nossa!, é ainda mais gratificante.

"Como se chama mesmo o nome dessa editora que publicou o 'Maus'?"

"A mãe do Calvin tá com cara de 'aff'' nessa tirinha."

"Eu leio mangá e eles são quase sempre em preto e branco!"

"A Mônica e o Cebolinha são desenhados com formas mais circulares, arredondadas!"

"Olha o desenho que eu fiz, 'sor'."

Claro que também tem aqueles que nem estão pra oficina, mas ainda assim é um trabalho riquíssimo. Mostrar para os alunos que existem quadrinhos maduros, que não são coisa só de criança, e alfabetizar esses alunos em elementos básicos de leitura visual é investir no amadurecimento do campo dos quadrinhos como um todo. Daí podem surgir, no futuro, pesquisadores, artistas (que terão acesso cedo a obras não muito acessíveis para quem não é da área), roteiristas, críticos (coitados!) e até mesmo leitores. Os superficiais, que terão ao menos despertado o interesse por essa linguagem; os mais atentos, que prestarão atenção aos detalhes; os de bom gosto, que contribuirão com o campo na medida em que passarão a exigir mais qualificação dos artistas; e os desinteressados, que no mínimo vão saber que quadrinhos são bem mais interessantes do que parecem.

Essa interação com as crianças é ainda mais rica para mim, quem sabe, do que é para elas. Recomendo a quem ainda não passou por essa experiência. Será bom para você, será bom para as crianças. Para o campo dos quadrinhos, nem se fala.

E para quem quer uma maior sensação de realização no trabalho com quadrinhos, marco uma idéia importante: não se restrinja a um papel estanque dentro do campo. Você pesquisa quadrinhos? Pois vá dar uma oficina também e veja o que acontece. Você tem uma loja de quadrinhos? Comece a estudar narrativas e escreva suas histórias, nem que seja só para você mesmo. Você já é autor? Comece a analisar obras também, pois isso aumentará sua visão crítica sobre o próprio trabalho.

De preferência, atue em três ou mais funções. Você se sentirá bem mais realizado.

***

As idéias que expus neste texto, só para deixar claro, não são mera opinião.

Em primeiro lugar, a metodologia usada na oficina foi pensada de acordo com a faixa etária dos alunos, de acordo com os interesses de leitura e as capacidades de compreensão da idade. A parte de alfabetização em leitura de imagens é baseada praticamente no livro "Desvendando os Quadrinhos", de Scott McCloud. Seria injusto, porém, dizer que todas as idéias partiram daí. Eu passei três anos pesquisando semiótica visual no Grupo Imagem, grupo de pesquisa com certificação do CNPQ orientado pelo professor Adair Caetano Peruzzolo, na UFSM. No Grupo Imagem, debatíamos idéias de Adonis A. Donis, Phillipe Dubois, Eliseo Véron, Jacques Aumont, Umberto Eco e outros. Referências mais precisas você tem aqui!

Também pesquisei sobre narrativas para o meu trabalho de conclusão de curso. Desde então, venho me aprofundando mais nessa área.

Sobre como obter satisfação pessoal e coisas do tipo... Não, essas idéias não são de livros do Paulo Coelho ou livros de auto-ajuda. Mas se fossem, também não seria problema. O importante é que sejam úteis. Caso, porém, você queira um embasamento maior sobre isso, a fonte precisa é o livro "First Things First", de Stephen Covey. Mais do que questões sobre como gerenciar melhor seu tempo, esse administrador fala no livro sobre como definir o que é realmente importante em sua vida, beneficiando até mesmo sua parte profissional (em conseqüência, não como fim). É um livro que ajuda você a pôr as coisas nos seus devidos lugares e ainda dá ótimas idéias sobre como se sentir mais satisfeito com as coisas que você faz, apenas mudando o modo de vê-las.

Outro dia posso resumir aqui as idéias principais desse texto. É importante, mesmo fugindo do tema "quadrinhos".

Bem, por hoje é "só".

2 comentários:

Leonardo disse...

Cara, muito legal tu comentar essa experiência com essa sinceridade toda. Imaginava que tu tiraria ótimas idéias e experiências a partir destas oficinas, mas que tu consiga relatá-las de forma com que os que te lêem também consigam tirar alguma forma de experiência - ou, porque não, lições - para a sua própria vida é algo muito legal.

Gostei de ler teu relato, e pode saber que pelo menos a mim inspirou várias idéias, nem que elas sejam inspiradas por uma pontinha de inveja de saber que tu lida muito melhor do que eu com certos desafios que situações cotidianas como estas nos fazem enfrentar.

Grande abraço!

Thaís Brugnara disse...

Professor, Augusto

Imagino as crianças te chamando de ‘sor’. Achei a idéia muito boa, como forma de familiarizar as crianças com a linguagem e formar público leitor.
Quando vieres a SM, quero ouvir os teus relatos, as anedotas que sempre se tem de sala de aula.Assim como pretendo assistir à oficina que tu ministrarás em Tupanciretã.

Ah, tens razão ao afirmar que a tarefa do crítico é a mais ingrata. E também tens razão de não usar Paulo Coelho.