sábado, junho 21, 2008

A crítica da crítica

Ocorreu uma situação que me parece interessante trazer pro blog.

Há algumas semanas publiquei aqui uma crítica sobre a HQ "A casa ao lado", de Pablo Mayer e Diogo Cesar. Veja aqui!

Confesso (embora o texto por si só deixe claro isso) que fiquei receoso com a repercussão que a crítica poderia ter. Para minha surpresa, não houve repercussão nenhuma. Ehehehe. Mas me interessou saber se, como iniciante que sou nessa lida de fazer críticas, eu tive um julgamento correto sobre a obra. Quer dizer, eu senti que sim, mas é sempre bom o crítico ser autocrítico.

Até porque o crítico é alguém que se torna crítico meio que involuntariamente. Pelas leituras e estudos de determinada linguagem, ele acaba aumentando a percepção e o olhar analítico sobre as obras. Aliás, ele não, eu. Afinal, eu sou o crítico em questão.

Essa observação acaba com aquela dúvida: crítica é opinião? Não, não é. Quer dizer, só é opinião quando o cara que a escreve não tem formação e, com isso, não tem o que falar, quando fica num gostei/não gostei, embora às vezes um pouco mais elaborado do que isso. Só é opinião, portanto, quando o cara que está escrevendo sobre a obra quer se sentir um crítico, sem o ser involuntariamente. Esses casos são complicados. Porque fazer crítica é algo que exige muita responsabilidade.

Eu senti essa responsabilidade quando escrevi sobre "A casa ao lado". E pensei bem se escreveria a crítica ou não. Quer dizer, lendo a obra eu percebi certas coisas, mesmo não querendo. Seria muito mais fácil para mim simplesmente gostar e ponto final. Mas gostei e não gostei, porque vi falhas e tudo o mais, além dos méritos da obra. E decidi que deveria expor tudo isso aqui.

Passou o tempo e, há alguns dias, descobri outras resenhas/críticas sobre a mesma obra. Eu não havia lido nenhuma outra avaliação para escrever a minha própria, que fique claro. Portanto me interessava saber o que veículos especializados (leia-se: "com mais experiência do que eu") escreveriam sobre uma obra que eu também analisei.

Bem, vejamos algumas críticas/resenhas:

- Blog dos Quadrinhos
- Revista O Grito
- Universo HQ

Essa leitura comparativa é realmente um belo exercício. Recomendo que você o faça, não vai levar muito tempo. O maior texto é o meu, os outros são pequenos.

...

Leu?

...

Agora, algumas observações. À primeira vista, parece que há contradições entre os quatro textos (o meu e os outros três que acabo de lincar). Como no fato de eu elogiar a qualidade gráfica da obra e em outro lugar estar dito que "a edição não tem muito luxo". Parece contraditório, mas não é. Eu concordo, a edição não tem muito luxo, mas não precisa de luxo para demonstrar requinte. Dentro do formato simples em que foi pensada a publicação (sem orelhas e tudo o mais), está muito bem feita.

Sobre a parte narrativa, percebi que todas as resenhas/críticas demonstraram um pé atrás em relação ao tema da obra. Algumas fizeram elogios discretos, onde se sobressai mais a crítica subentendida do que o elogio em si. Outros fizeram críticas um pouco mais declaradas, mas procurando neutralizá-las logo em seguida com uma louvação exagerada. Mas, no fim, praticamente todos os textos apontaram que se trata de uma trama simples e que beira o clichê, embora alguns desses textos destaquem aspectos supostamente inovadores que, em tese, dariam todo o mérito da obra e evitariam o clichê. Mas a citação do clichê está ali, em todas as resenhas/críticas.

Poucos entraram nos méritos das questões narrativas em si. Isso me parece explicável por algumas hipóteses:

1) falta formação em análise de narrativa aos resenhistas/críticos - isso seria improvável em alguns casos, mas, mesmo que o fosse, não seria algo ruim de destacar. Afinal, há inúmeras maneiras de olhar uma obra. Eu gosto da parte narrativa. Tem gente que tem mais ligação com o contexto e com a origem histórica, coisas que por enquanto não são meus fortes.

2) foi uma leitura rápida - sim, isso explicaria muita coisa. Eu li com calma porque a minha demanda de leitura não estava grande na época. E, ainda assim, foi uma leitura rápida, porque é um livro pequeno. Mas falo, nos outros casos, em leitura rápida assim, bem rápida mesmo, tipo aerodinâmica - só passar os olhos por cima.

3) estão fazendo vista grossa - também natural. Porque o Pablo e o Diogo são jovens e estão apenas começando essa lida com feitura de quadrinhos. Ninguém quer queimá-los e, ainda por cima, ambos demonstram pontos fortes de potencial qualidade na obra. Isso merece ser destacado. Eu optei por uma abordagem que aponta esses pontos fortes mas que também mostra as falhas, até para os autores se darem conta e poderem evoluir. Outros críticos/resenhistas optaram por falar só dos méritos.

Em suma, lendo os três textos e relendo o meu, cheguei a uma conclusão de certa forma óbvia, mas só depois que eu a expor: todas as críticas/resenhas MANIFESTAM-SE de maneira opinativa ou, melhor dizendo, subjetiva. Em compensação, todas essas opiniões e análises subjetivas SÃO BASEADAS em critérios objetivos muito bem definidos.

Na prática, por exemplo: todos os textos apontaram um enredo pouco interessante em "A casa ao lado", mas a maneira como cada crítico/resenhista decidiu apontar isso variou. Um fez vista grossa, outro elogiou os méritos sem deixar de apontar os defeitos, outro criticou mas cheio de dedos... Todos viram o problema, mas cada um manifestou de um jeito.

Bueno, isso renderia um artigo, mas como prefiro essa linguagem descontraída, rendeu um post.

2 comentários:

Elisa disse...

Não vou entrar no mérito da obra coisa e tal. Quanto a isso, acho válidos seus comentários, críticas e opiniões (sim, ao contrário de você, acredito que toda crítica tem uma opinião por trás - inclusive esta que faço agora).
Agora, não tem coisa mais ridícula do que ao fazer um crítica, comparar com críticas de outras pessoas e, porque os demais tiveram outra percepção, julgar a própria crítica superior, melhor embasada e feita com mais afinco. Ou até cogitar que os outros "podem não ter uma formação tão boa quanto eu", "ter lido mais rapidamente" blablablá. Mais um que caiu no velho conto da imparcialidade. O que faz você pensar que os outros são mais subjetivos que você e isso os torna menos competentes no que fazem? Tudo bem criticar, mas ao menos tenha a decência de assumir que por trás dessa crítica há uma opinião sua, o seu ponto de vista. Porque isso não é falta de profissionalismo. É apenas ter a coragem de colocar a cara à tapa sem temer por situações chatas com os autores. Afinal, é muito mais conveniente se esconder no discurso do "olha, eu critiquei sua obra, mas sabe como é, essa é a minha opinião profissional, porque eu estudei muito pra tê-la e sou foda no que faço. Mas no pessoal, te considero pra caramba!".
Continue fazendo suas críticas isso é realmente muito legal e, imagino, deve acrescentar bastante aos autores resenhados. É sempre bom ter opiniões sinceras e profissionais sobre um trabalho seu. Mas não tenha medo da subjetividade - ela não morde, juro! - e, façameofavor, largue um pouco o pedantismo. Esse sim pode te distanciar de um trabalho bem feito.

Oficina38 disse...

Oops! Alguém não tomou o Prozac hoje...

O Augusto não estava absolutamente exercendo seu "pedantismo" - coisa que ele absolutamente NÃO tem. Seu texto é uma reflexão sobre a atividade do crítico, e por isso ele analisa seu trabalho - uma primeira tentativa! - com as críticas feitas por outros da mesma HQ.

A revolta da tal Elisa acima só pode ter explicação na sua relação pessoal com o autor da HQ, com o autor de uma das críticas estudadas por Augusto ou, quem sabe, com ela mesma (por ser uma das autoras?).

Mas, é isso, Augusto: no Brasil, critica-se a obra e a pessoa toma aquilo como pessoal. Por isso não há críticos de peso em nosso país, contam-se nos dedos das mãos, pois todos acabam tendo que se render a essa coisa mimada do brasileiro de não acatar a crítica como algo construtivo.

Continue o bom combate.

Abraço,
Beto