terça-feira, janeiro 03, 2006

Post comparando o passado e o presente, ao melhor estilo pensamento-de-reveillon

Compare estes dois desenhos (o gancho com o último post é evidente!):





Mônica e Cebolinha, personagens de Maurício de Souza, como eram desenhados antigamente, no tempo do guaraná com rolha, no tempo em que a vovó menstruava...














Mônica e Cebolinha hoje, ainda brigando...









Pois bem, você percebe uma significativa diferença na maneira como se apreende os sentidos em cada um desses desenhos? Digo, as personagens são as mesmas, o enredo também. Mas, mesmo assim, parece que a sensação que se tem ao ler muda.

(Logicamente, estou partindo do princípio de que pra mim muda. Se pra você isso não acontece, ignore o resto do post!)

No ano passado dei uma mini-palestra sobre quadrinhos num curso promovido pelo Grupo Imagem, aqui na UFSM. Durante a apresentação, enquanto falava sobre formas, usei como exemplo justamente essa diferença na produção de sentidos das histórias da Turma da Mônica em função da mudança no desenho das personagens. Faz sentido: os mais antigos são oblongos, elipsais; os de hoje são arredondados, suavizados, passam mais sensação de conforto visual. Claro, tem diferença nas cores, também, pois o avanço tecnológico permitiu o uso de mais tonalidades, como se pode ver no segundo desenho ali de cima.

Agora, tem algo que me fugiu na ocasião mas que acrescento hoje: há uma lição semiótica que prega um fundamento socio-biológico pra justificar por que a figura do círculo transmite suavidade e a as formas pontiagudas passam agressividade (o desenho antigo da Turma da Mônica é menos circular que o atual). Porém, fiquei pensando esses dias: nesse caso específico, a mudança na leitura dos sentidos se dá, principalmente, pela percepção da passagem de tempo.

Entende o que quero dizer? Você sabe que a Turma da Mônica antiga era desenhada de tal forma, e as de hoje são diferentes. Então você se depara com um desenho mais arredondado e lê sabendo que é uma história contemporânea. Ao passo que pega um desenho mais em forma de elipse e, de antemão, já têm a sensação de estar lendo algo antigo. Justamente por você já ter esse conhecimento da mudança na forma dos desenhos do Maurício de Souza com o passar do tempo.

Bem, este post é reflexivo, não conclusivo. Adoraria ter mais discussão em cima disso, receber contribuições. A minha parte, porém, encerra aqui.

2 comentários:

Theo G. Alves disse...

augusto,
passar por aqui é sempre ter ótimas "aulas" (no melhor sentido que a palavra pode ter) sobre quadrinhos.
muito bom.
um abraço!

Elisa disse...

Oi, Augusto, que bom você ter tocado neste assunto, acho que pode render mais discussão e análise. Eu prefiro o traço mais quadrado, o rendondo me enjoa. Quero lembrar que essa edição que você postou, é a revista nº1 de 1970, quando a Mônica ainda era da editora Abril. Não peguei essa época, mas essa mesma revista foi lançada em 2003 pela editora Globo, em edição fac-símile. Lançando uma questão: por que o traço mudou tanto? Apenas para o desenho virar em larga escala ou tem mais implicações nisso?...
Elisa.