segunda-feira, dezembro 05, 2005

Beba guaraná Celina, beba!!!

A participação do leitor é de extrema importância nos quadrinhos. Entre um quadro com o desenho de alguém erguendo um machado e outro com a onomatopéia do grito de uma pessoa, usando um exemplo mccloudiano, é o leitor quem realiza a ação: ele imagina a força do golpe, a velocidade, o lugar em que o machado acerta, se é que acerta... Enfim, o autor dá as armas pro leitor, que, no fim, realiza a ação (nesse caso, o leitor torna-se assassino: é quem usa o machado para matar).

Essa introdução é pra falar da participação dos leitores no blog, que é tão importante quanto numa história em quadrinhos. Afinal, as discussões podem ser ampliadas, melhor ilustradas, diversificadas.

Daí que esta semana recebi dois comments indicando material sobre mensagens subliminares, assunto neste blog há alguns dias. Depois daquilo, num jogo de futebol, entre um litro de refri e outro (aposto que tinha mensagem subliminar na bola dizendo pra gente beber mais!), um amigo me lembrou que quem apresentou, há dois anos, o trabalho sobre a campanha eleitoral do George W. Bush foi o próprio Calazans, que escreveu o artigo motivador do post "Batman e Róbin: o duplo sentido do '&'" (dêem uma olhadinha aí embaixo, pra contextualizar). Recordo que questionei o Calazans no congresso a respeito de uma dúvida minha: afinal, será que algumas coisas que ele apontava, como o som de porcos agonizando na trilha do filme Exorcista, não eram antes um recurso para produzir sentidos do que uma mensagem subliminar? Ele não respondeu à minha pergunta.

Voltando aos comments. O Diogo, um dos que me escreveu, passou este endereço aqui, do Projeto Ockham, cuja razão de ser é desmistificar as pseudociências. O link dá num artigo que desvenda o processo de construção do mito das mensagens subliminares, desde a famosa experiência do "Beba Coca-Cola" durante uma sessão de filme até a conclusão de que uma mensagem, para produzir ação, tem de ser captada e, assim, acaba deixando de ser subliminar.

O Projeto Ockahm pode ser colocado em comparação com a ONG Mensagem Sublimar. Taqui o link dessa última. Você cutuca com o mouse em cima e tira suas próprias conclusões.

O que noto é que o artigo vai ao encontro de um texto que eu já havia lido do educador cearense Lauro de Oliveira Lima. Sensibilização e estímulo, o título do trabalho, defende que nós só percebemos os estímulos para os quais temos mecanismos de percepção. Como acontece com a visão e a audição: só vemos e escutamos aquilo que está dentro das freqüências de onda que a nossa espécie tem capacidade de captar. Daí que não enxergamos abaixo do infra-vermelho e acima do ultra-violeta, nem ouvimos sons que nosssos cães, bem faceiros, escutam.

O artigo é interessante pelas conclusões a que chega. Uma delas, por exemplo:

"A 'teoria da assimilação' de Piaget [...] muda completamente tudo o que se pensava, não só a respeito da eficácia da propaganda, como o que a polícia pensa com relação à censura. O material que a censura censura, provavelmente, nenhuma influência 'perniciosa' produziria. Não é porque se assiste a um filme 'imoral' que se passa a ser imoral. Não se muda de ideologia porque se leu um editorial contra a ideologia que se adotava. Pelo contrário: em geral, a agressão a nossos preconceitos leva-nos a obter recursos novos para defendê-los (cada corrente de opinião assina o jornal que reforça seus pontos de vista). Todo mundo conhece a agressividade dos grupos minoritários, precisamente porque estão mergulhados num ambiente 'agressivo': antes de ter que mudar, o organismo (a mente) faz tudo o possível para não mudar (daí ser tão rara uma 'conversão')."

O artigo diz mais, mas este post já está muito grande. Enfim, o que o autor escreve pode ser transferido para a teoria das mensagens sublimanares (inclusive o Projeto Ockham usa os mesmos termos, como "percepção" e "estímulo"): nós só vamos captar essas mensagens se tivermos capacidade para isso (e não sei se um frame entre tantos pode ser captado...). Além do mais, não dá pra esquecer que, de captar a aceitar cegamente uma mensagem, são outros quinhentos.

Eu gostei da conclusão do Lauro de Oliveira Lima, que me pareceu bem sensata:

"Não se pode afirmar, simplesmente, que a violência, intensamente exposta nos m.c.m. [meios de comunicação de massa], não influenciam o comportamento dos espectadores, mas a afirmação contrária, também, é desprovida de qualquer base científica. O problema é, infinitamente, mais complexo e merece cuidadosa pesquisa."

Bem, é isso. Algumas idéias pinceladas, pra enriquecer a discussão.

...

Ah, peraí, já ia esquecendo! O meu quase-xará Eduardo Augusto mandou, num comment, este link, que vai dar em exemplos de duplo sentido em histórias em quadrinhos (como a imagem aí de cima). Vale a malícia que a gente não tinha quando era criança. Ou, pelo menos, não lembra!

3 comentários:

Paulo Rená disse...

Muita info, hein.
Isso aqui realmente é bacana. Que tal propor nova entrevista ao Dahmer?

Eduardo Augusto disse...

"O meu quase-xará Eduardo Augusto mandou, num comment, este link, que vai dar em exemplos de duplo sentido em histórias em quadrinhos (como a imagem aí de cima)."

Falando em duplo sentido, essa frase tem muito duplo sentido. Não vou dar em exemplo nenhum!! rsrsrs. Abraços!!

Ludmila disse...

Ei Augustito! Dei uma passada por aqui e fui levada pelo blog, pelo texto, por estes quadrinhos! Tá demais aqui, o visual o deleite sonoro dos uuuu... Vou e sempre voltar! Beijo procê!